Dia das mães: A madrasta

Madrastas Como conviver com as “mães emprestadas” pela vida. Elas também
merecem um carinho especial no Dia das Mães?

Repórter: Renata Cristina
Designer: Laura Martins Ferreira
Edição: Ludmila Gusman
maio/2007

Nas histórias infantis, elas ganham o rótulo de vilãs. Sempre com o rosto fechado, aterrorizam a vida dos enteados e são taxadas de más. Cinderela e Branca de Neve são bons exemplos destes clássicos. As boazinhas dos contos de fadas tiveram que se desdobrar na convivência com a madrasta e, mesmo assim, não obtiveram sucesso.

Também na vida real, há muitas mulheres que sofrem com a marca e não sabem como conquistar os filhos do marido. Ciúmes, disputa de atenção e carinho são alguns dos sentimentos que dificultam estas relações. No entanto, o convívio pode, sim, ser amistoso, caso madrasta e enteados estejam de coração aberto.

É assim que a estudante de direito Amanda Calheiros (foto ao centro), de 19 anos, encara o relacionamento com a madrasta Aleandra. “Sou apaixonada por ela”, declara. Segundo Amanda, o contato com o pai seria prejudicado, se a amizade com Aleandra não fosse tão forte. “Estamos em família, não há motivos para dificultar as coisas, deixar o clima chato”, considera.

Embora Amanda não divida o mesmo teto com a madrasta, já que a jovem vive com a mãe, ela garante que não teria medo da proximidade. “Isso não me assusta, pois tenho também um padastro e vivo bem com ele e meus irmãos, do segundo casamento de ambos”.

O encantamento de Amanda com a madrasta é tão intenso, que a jovem diz que não teria receio em presenteá-la Dia das Mães. “Com certeza, ela merece, já que também é mãe de meus dois irmãos”. Para quem pensa que a mãe da garota poderia ficar enciumada com tanta dedicação, se engana. “Ela não tem problemas com isso. As duas convivem harmoniosamente”, diz.

Nem tudo são flores

Foto Ana Paula Batista Também adepta da convivência pacífica, a estudante Ana Paula Batista Ozório (foto), 17 anos, diz que nem tudo são flores. “Atualmente, tenho uma relação boa com ela, mas já passamos por muitas dificuldades”, relembra. Os problemas começaram a aparecer quando a Ana Paula chegou na adolescência. “Ela queria fazer o papel de mãe, me proibir de fazer certas coisas, o que me deixava muito triste”, diz.

A jovem se apoiou no pai para chegar a um consenso. O diálogo e a sinceridade foram os ingredientes usados pela estudante para resgatar a confiança da madrasta. “Prefiro deixar tudo bem claro e mostrar quais são as minhas razões”. Quanto ao presente de Dia das Mães, Ana Paula ainda não sente tanta firmeza no relacionamento com a madrasta a ponto de presenteá-la. “Para quem tem uma convivência boa, acho muito legal dar um presente”, afirma.

Manual da família feliz

Não meça o amor de pai

Os pais têm amor de sobra para os filhos. Não fique medindo a quantidade de tempo e carinho que ele dedica a você ou a madrasta. Aprenda que para cada tipo de relacionamento, há uma forma de expressar sentimentos. Madrastas e filhos devem ser compreensivos e deixar a vida fluir naturalmente. Quanto menos pressão as partes exercerem em direção ao pai, mais tranqüilo e saudável será o dia-a-dia.


Não faça da convivência uma disputa

Quando o clima esquentar dentro de casa, não coloque lenha na fogueira. A madrasta não deve interferir na briga de pai e filho, e as crianças vice-versa. Não tente disputar espaço, objetos ou datas especiais. Isso só irá desgastar o relacionamento. Aproveite o tempo em família para vivenciar os bons momentos e deixar para trás ressentimentos.


Comportamento em festas de família

Na hora das comemorações em família, pais, filhos e madrastas devem pesar na balança o quanto a presença dela ou das crianças se fará indispensável. Caso haja alguma situação desconfortante para as famílias, é melhor que alguém abra mão de ir à festa, sem criar desconforto. Os próprios filhos e até a madrasta podem conversar sobre o assunto, para que não causem um constrangimento pior depois.


Presentes para a madrasta

Se os filhos não se sentirem confortáveis em presentear a madrasta, não é necessário fazê-lo. No entanto, essa é uma forma de agradecimento, de mostrar o quanto ela é importante para o seu pai e sua família. Para o Dia das Mães, você pode pedir a ajuda do paizão para ver se ela gostaria ou não de ganhar um presente. Toda forma de carinho é válida!



O meu pai é um herói - Homenagem ao pai que é “mãe”

“O meu pai é um herói” Imprimir e-mail
Escrito por Cátia Figueiredo   
12-Mar-2008
Um homem que cria sozinho três crianças. É esta a história da família Ramalho. A doença levou a figura materna desta família. Foi então tempo do único homem da casa assumir as rédeas sozinho e educar as três filhas, hoje três mulheres. Em vésperas do Dia do Pai, o Independente de Cantanhede foi conhecer um super-pai, pelos olhos das filhas.

Ana Filipa (20 anos), Ana Rita (23 anos), Ana Margarida (24 anos) e José Ramalho (55 anos). Quem conhece este pai e as suas três filhas encontra uma família como tantas outras. O que distingue os Ramalho é a presença de um super-pai, como admitem a próprias filhas.

Foi há cerca de onze anos atrás que o pai José Ramalho assumiu a tarefa de educar sozinho três crianças, depois da morte da mãe Ramalho. “A princípio uma pessoa olha para esta história e pensa: “Uma tragédia!”, mas não”, garante a filha mais nova. “Primeiro porque não é nada de outro mundo, há gente bem pior, e depois porque o meu pai desempenhou perfeitamente o papel.”

A falta da mãe obrigou a alguns ajustamentos na família. Se a filha mais velha assumiu – e continua a assumir – o papel de “galinha”, já a do meio tornou-se na mais brincalhona e a mais nova é mesmo a mais reservada. Quanto ao pai, Ana Filipa garante ser unânime lá em casa que ele se tornou num super-pai.

“Há tempos uma senhora dizia: ‘É um grande homem!’ e o meu pai respondeu: ‘Não, eu só tenho 1 metro e 74!’ Além disso tudo, ele ainda consegue ser humilde.”

Altura de abandonar progenitor

Assumem-se hoje como meninas do papá. “E o papá também é das meninas”, garante a filha mais nova.

A infância, recorda a benjamim, foi um período feliz, onde não faltou carinho, cumplicidade e muita brincadeira. “Costumo dizer que a definição do meu pai é: o pai que se deita no chão para brincar com as filhas. Porque era, eu lembro-me de ele fazer isso comigo também.”

A falta da figura materna em casa acabou por não se revelar problemática. A situação acabou sim por estimular uma relação de grande confiança entre pai e filhas. “Houve uma vez que uma colega minha me perguntou: ‘Como é que tu consegues comprar soutiens com o teu pai?’ E eu pensei ‘como é que eu haveria de não conseguir?’ Para mim é super natural!, recorda Ana Rita rindo. “Como crescemos assim, nunca soubemos como era ser diferente.”

Hoje José Ramalho passa a semana sozinho na casa de Cantanhede, na companhia dos sete cães. A filha mais velha está a trabalhar em Inglaterra e as outras duas estudam em Coimbra.

A missão mais dolorosa coube à filha mais nova, a última a sair de casa. “Eu antes de entrar para a Faculdade lembro-me de chorar à noite no Verão a pensar no meu pai sozinho”, conta. “Eu costumava dizer que fui eu que fiquei com esse papel de abandonar o meu pai.” O problema acabou por não se revelar problemático e a jovem garante mesmo ter desenvolvido uma relação mais próxima com o pai.

O segredo da família para ultrapassar as dificuldades, revela a filha mais nova, é ir pensando nos obstáculos à medida que vão surgindo. “E depois logo se vê como se resolve.”

“Cenários de guerra”

Uma pessoa actual, aberta, pouco conservadora, pacífico e discreto. É assim que o pai José Ramalho é descrito pela cria. Falar de namorados é o assunto ainda hoje mais difícil para o progenitor. De resto, é conhecido pelas suas “saídas muito elegantes, sem falar dos assuntos, mas falando”

“É um herói”, acrescenta ainda. “E quando digo herói não é teoricamente, é mesmo na verdadeira acepção da palavra”, descreve Ana Filipa visivelmente orgulhosa. “O meu pai chegou a uma altura que fazia quatro coisas diferentes: dava aulas, colaborava com duas empresas e dava explicações.”

Porque até um super-pai também tem defeitos, José Ramalho é conhecido entre as filhas pelos seus “cenários de guerra”. É assim que as jovens classificam em tom de brincadeira os momentos em que o pai se enerva.

“O meu pai é um super pai, mas não é diferente. É igual aos outros. É é super.”

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Dia das Mães — e dos Pais…


Embora domingo que vem seja o Dia das Mães, é aos pais que desejo expressar minha mais sincera solidariedade. Dizem que ser mãe é padecer num para;iso. Pai sofre (e sofrer não é sequer tão nobre quanto padecer) — e não é em nenhum paraíso.

O pai está sempre correndo atrás do prejuízo. O homem se torna pai, mesmo, quando o filho nasce (e ele tem certeza de que é dele). A essas alturas, a mãe já é mãe há cerca de nove meses e, durante todo esse período, desenvolveu com o filho toda uma cumplicidade que o pai vai levar anos para conseguir (se é que consegue). A mãe alimenta o filho antes de ele nascer, sente-o crescer nas suas entranhas, recebe chutes e outras cutucadas dele, fica com o corpo meio deformado (se bem que ainda lindo) por causa dele, sofre mudanças no seu organismo relacionadas ao filho que carrega, tudo em preparação para colocá-lo no mundo e para alimentá-lo. Quando ele finalmente nasce, a mãe se sente, em relação a ele, como se estivesse lidando com um velho conhecido. Afinal, ele foi parte dela, em um sentido literal, durante nove meses. Em um sentido
figurado, nunca vai deixar de ser parte dela.

Durante todo esse período de gestação, o que faz o pai? Fica assim com uma cara meio abobalhada quando se lhe dão os parabéns, pois tem o sentimento de que está recebendo honras que não lhe são inteiramente devidas. Afinal de contas, sua participação no processo está sendo mínima (mesmo que inicialmente possa não ter sido desprezível).

Mas o pior vem depois de o nenê nascer. O pai olha para ele e pergunta: “Mas isso aí é o meu filho?” Falta-lhe aquele sentimento de intimidade com o recém-nascido que na mãe é tão natural. Afinal de contas, ela já o conhece bem.

Além disso, na maternidade, todo mundo quer ver, o nenê e a mãe — nesta ordem. O pai em regra nem é percebido, mesmo que esteja no quarto e por mais que se esforce para ser notado, distribuindo charutos, fazendo piadinhas, colocando o uniforme do time preferido na porta do quarto (se o nenê for menino), coisas assim. Se é o primeiro filho, então, ele em geral nem carregá-lo direito sabe: pega-o desajeitadamente, como quem está com medo de quebrar a criança. A mãe, por outro lado, parece que foi feita para aquilo: segura a criança com naturalidade, e esta se encaixa no vão entre sua barriga (que ainda não voltou ao normal) e os seus seios, prontos para alimentar o recém-nascido.

Convenhamos: a criança que acabou de nascer e que agora vai crescer é uma realização da mãe. O pai, na realidade, não passa de coadjuvante — mas a sensação dele é de que é apenas figurante. Nenhum homem vai jamais entender o mistério da maternidade.

Se o nenê for menina, o pai vai ter um pouco de chance de ganhar algum prestígio relativo mais adiante, por razões que Freud bem explica.

Mas se for menino, esqueça (pelas mesmas razões). O menino vai ser um eterno rival do pai, que vai se sentir cada vez mais preterido pelas atenções que a mãe vai devotar ao rebento - para o resto da vida!

Sei bem disso. Meu pai, com quase oitenta anos, ainda reclamava das atenções que minha mãe me dava quando eu ia visitá-los. Sempre reclamou. Houve um tempo, antes de eu ter meus próprios filhos, em que achei que meu pai tinha algum problema emocional mal resolvido para sentir ciúme do filho. Hoje, sei melhor, pois me sinto da mesma forma — e eu sei que… “eu sou normal”!!!.

Para vocês verem como o problema é sério, eu, como pai, já senti até uma certa inveja de uma raça de cavalos, mencionada num desses programas tipo “Mundo Animal”, na qual é costume que o pai expulse o cavalinho macho da “família” assim que ele começa a achar que é gente — para, sem a presença próxima do rival, tentar reganhar a mãe do cavalinho para si. Mas entre humanos isso não funciona.

E não adiante tentar desenvolver uma falsa cumplicidade com o menino, levá-lo ao campo de futebol, tentar inseri-lo no mundo dos machos da espécie… Quando ele tiver algum problema (exceto financeiro) é a mãe que ele vai procurar. E mesmo no caso de problemas financeiros, o menino muitas vezes pede à mae para abordar o pai — e a mãe as vezes resolve o problema do filho sem que o pai fique sequer sabendo…

Enfim, a gente vai ter de viver com esse problema para o resto da vida. A única coisa que realmente compensa é que a mulher se derrete toda quando você, o pai, trata bem o filho DELA. E pode até lhe dar uma colher de chá de vez em quando.

Feliz Dia das Mães, para as mães. E, para os pais, Feliz Dia dos Pais antecipado.



Aula de piano - para o dia das mães

Aula de piano

Depois do almoço na sala vazia
A mãe subia pra se recostar
E no passado que a sala escondia
A menininha ficava a esperar
O professor de piano chegava
E começava uma nova lição
E a menininha, tão bonitinha
Enchia a casa feito um clarim
Abria o peito, mandava brasa
E solfejava assim:

Ai, ai, ai
Lá, sol, fá, mi, ré
Tira a não daí
Dó, dó, ré, dó, si
Aqui não dá pé
Mi, mi, fá, mi, ré
E agora o sol, fá
Pra lição acabar

Diz o refrão quem não chora não mama
Veio o sucesso e a consagração
Que finalmente deitaram na fama
Tendo atingido a total perfeição
Nunca se viu tanta variedade
A quatro mãos em concertos de amor
Mas na verdade tinham saudade
De quando ele era seu professor
E quando ela, menina e bela
Abria o berrador
Ai, ai, ai,
Lá, sol, fá, mi, ré

Vinícius de Moraes



Dengue



A história da África e dos africanos o Brasil na nossa sala de aula

A Lei n. 10.639 na sala de aula
  

Mônica Lima1

ENFRENTANDO OS DESAFIOS: A HISTÓRIA DA ÁFRICA E DOS AFRICANOS NO BRASIL NA NOSSA SALA DE AULA*

No dia 9 de janeiro de 2003 foi aprovada a Lei n. 10.639, que tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura afro-brasileira, bem como de História da África e dos africanos em todos os estabelecimentos de ensino, públicos e privados, no Brasil. Nestes conteúdos estariam incluídos, ainda segundo o texto da lei, a luta dos negros no nosso país, a cultura negra brasileira e a contribuição dos negros na formação da sociedade nacional - como subtemas que passariam a ser necessários nos estudos de História do Brasil. O Conselho Nacional de Educação já emitiu parecer detalhado, de autoria da Professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, regulamentando a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional2.

Esta lei tem uma história. Grupos ligados ao movimento negro e representantes da comunidade acadêmica, desde há muito, reivindicam esta inclusão. Para falar apenas da história mais recente, houve um período, na década de 90, em que os estudantes de História organizavam, no ano intermediário aos seus encontros nacionais3, um Encontro Nacional de História da África. Em partes diferentes do Brasil, distantes em geral dos grandes centros4, nunca menos de quinhentos estudantes passavam uma semana às voltas com cursos, mesas-redondas e atividades ligadas ao tema. Paralelamente, a ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História) não poucas vezes se pronunciou favorável à inserção de disciplinas de História da África nos cursos universitários de História. E outras entidades e grupos, bem como intelectuais e ativistas do movimento docente,  apresentaram a mesma reivindicação.

Ou seja: não se pode em nenhum momento dizer que esta lei foi uma criação de um governo sem um movimento prévio que a apoiasse e a pusesse na pauta da educação brasileira. Ela resulta de um processo no qual diferentesagentes sociais atuaram para que se tornasse realidade, e por acreditarem na importância da medida. Claro que a lei não basta. Nenhuma medida legal é suficiente, se não nos debruçarmos sobre ela para refletir e se não nos engajarmos na sua execução. E neste caso, em especial, estes dois movimentos se fazem necessários.

Se quisermos olhar com um certo distanciamento, podemos perguntar-nos: por que a necessidade de uma lei para fazer valer a presença de um conteúdo tão evidentemente fundamental na História geral e em especial na História de grupos humanos que participaram diretamente da formação do nosso país?

A raiz deste ocultamento estava no preconceito e na ignorância sobre a vida social e a história destes grupos humanos e, sobretudo, na necessidade de domínio sobre eles, com objetivos de escravizá-los ou colonizá-los. Esta raiz, portanto, se situava na própria história das relações com os povos africanos por parte daqueles grupos dominantes das sociedades nas quais nossos primeiros historiadores se espelharam para construírem os saberes oficiais sobre o Brasil.

A negação desta história esteve sempre associada nitidamente a formas de controle social e dominação ideológica, além do interesse na construção de uma identidade brasileira despida de seu conteúdo racial, dentro do chamado desejo de branqueamento de nossa sociedade. Característico da segunda metade do século XIX, este desejo ainda vigora dentro de alguns setores sociais mais retrógrados, embora a luta por mudanças no campo do ensino da História tenha criado embates ao longo do século XX.

Podemos observar que até hoje existem nos currículos dos cursos de História das universidades brasileiras poucas disciplinas específicas sobre África, assim como praticamente se ignora o tema nos estudos de História Geral do Ensino Fundamental e Médio. Ao tornar obrigatória sua inclusão na Educação Básica, estaremos frente a uma imensa dificuldade: que História será esta a ser apresentada, se a maioria dos professores em sala não teve contato com ela?

Isto não tira a importância da medida. É certo, muitos fomos e somos aqueles que reclamaram espaços para estes temas. Mas frente a este espaço oferecido, temos que definir objetivos, discutir as abordagens - ou seja, aonde chegar, e como chegar? Responder a estas perguntas nos coloca frente a questões muito profundas. Ora, se resgatar esta memória é elaborar nova matéria-prima da nossa identidade como povo, estamos em face de um desafio: quem somos? E ainda: quem desejamos ser?

Não há receitas prontas, não existe um ‘como fazer’, e por isso a necessidade de muitos espaços de discussão e troca intelectual - e não apenas entre os reconhecidos como “intelectuais” mas com os movimentos sociais. Não podemos, a despeito da exigência da Lei, sair repassando nas nossas salas de aula informações equivocadas, ou tratar o tema de uma maneira folclorizadae idealizada. Este é um grande temor: repetir modelos para fazer com que estes conteúdos curriculares fiquem parecidos com os que já trabalhávamos ao tratarmos da História e das contribuições culturais comumente estudadas é um caminho fácil e perigosíssimo. São temas diferentes e sua abordagem necessariamente deve ser diferenciada.

Nossos alunos certamente terão muito a dizer, mas devemos ter um imenso cuidado com o senso comum, que pode surgir tanto para desvalorizar como para criar mitos - os quais,  ao se desfazerem, redobrarão o peso da desilusão e do desgaste da auto-estima. Trata-se de um equilíbrio delicado entre o resgate de uma História que deverá servir para elevar o orgulho de pertencer a ela e a valorização de posturas estreitas que tendem a criar esquemas explicativos maniqueístas.

Em primeiro lugar é fundamental formar-se, atualizar-se nos temas, e não partir do pouco que se sabe para ocupar um lugar que nunca esteve ocupado. Temos a responsabilidade de tratar com muito profissionalismo estes conteúdos. Por isto, devemos estudar, procurar leituras específicas e, sempre que possível, capacitar-nos em cursos e em discussões acadêmicas. Nossas precárias condições de trabalho e de vida não podem justificar uma ausência de esforço neste sentido. Estamos falando da re-escritura de uma História que nos foi negada, estamos lidando com a base de uma identidade que está para ser reconstruída. O que está em jogo é mais do que nossa competência - é o nosso compromisso.

É essencial cobrar das autoridades, em especial dos gestores de instituições de ensino, o apoio para fazer da iniciativa da lei uma realidade. Foi estabelecida a obrigatoriedade, mas ela não basta, para que o obrigatório se torne viável e produtivo tem que haver investimento na formação. Estudantes universitários: militem pela inclusão destes assuntos nas disciplinas dos currículos de suas faculdades, institutos, departamentos. Isto é possível, e já vem sendo feito. Professores: solicitem da rede de ensino a realização de cursos - isto é possível, e também já é realidade em alguns lugares5. Busquem e criem espaços (seminários, mesas-redondas, debates, simpósios) e cursos onde se estimule o aprofundamento no estudo destes temas e as reflexões sobre práticas pedagógicas adequadas6. Pode não ser fácil, mas é um bom caminho.

Temos também que aprender a ouvir e a interagir com setores dos movimentos sociais organizados, que vêm criando, com esforço próprio, materiais pedagógicos e de divulgação sobre temas da História dos africanos no Brasil e da História da África. Com estes grupos também devemos buscar discutir e refletir sobre as concepções e conceitos deste campo do conhecimento. Não devemos nos acreditar os únicos donos deste saber.

Para os professores de Educação Básica, apresentamos aqui algumas sugestões de caráter geral. Nas séries iniciais do Ensino Fundamental, pode-se introduzir temas da cultura africana e afro-brasileira através de lendas, contos, cantigas, brincadeiras. Já existe produção (livros, sobretudo) para se tomar como referência. Nas aulas de Integração Social, falar da presença dos africanos na História do Brasil para além da reação à escravidão: levá-los a ver marcas desta presença viva, nas músicas, nas festas, no vocabulário, nos hábitos alimentares. Os africanos, além de mão-de-obra, eram pessoas que produziam cultura - mas não basta dizer, isto tem que ser algo vivido para começar a abalar as velhas estruturas dos preconceitos, as quais se alimentam da ignorância.

No segundo segmento do Ensino Fundamental, já podemos trabalhar com conteúdos mais precisos, falar da Pré-História - questionando o termo, pois não é a escrita que cria a história - como o tempo do processo de hominização, que se deu na África, antes que em outros lugares do planeta. Explicar os porquês, falar dos primeiros homo sapiens  africanos que saíram a povoar o mundo… Não deixar de comentar todo o esplendor e a pompa do Antigo Egito - tema que fascina nesta idade - lembrando sempre que este fica na África, algo que parece tão óbvio, mas que acaba sendo esquecido. Certamente, o Egito era também lugar de desigualdades - quem disse que os africanos não as viveram em sua terra? Procurar lembrar os grandes reinos do Sudão ocidental, que durante a Idade Média ergueram cidades, com universidades, mercados de livros, contatos com o Oriente e Europa - e encantaram tantos viajantes e despertaram a cobiça de outros povos com suas minas de ouro7. E, certamente, ao estudar o tráfico de escravos, não se limitar a falar do intercâmbio de pessoas por riquezas, mas também das riquezas transportadas por estas pessoas dentro de si, no maior processo de migração forçada da História da humanidade, que levou a uma verdadeira diáspora africana pelo Novo Mundo.

No Ensino Médio, ao retomar alguns conteúdos, debater as grandes visões, situar o surgimento do racismo como projeto científico e político - utilizando estratégias que permitam aos alunos construir e desestruturar idéias através de pesquisas, júris simulados, dramatizações. E sempre assinalar a fratura exposta da desigualdade racial brasileira. Nunca é demais repetir: nossa pobreza tem cor, nossa exclusão tem cor. Estes dados, porém, não devem ser naturalizados. Assim como foram fruto de uma História, fazer uma outra História pode mudar o quadro.

Outro ponto fundamental de caráter geral no ensino de História da África e dos africanos para estudantes brasileiros é pensar formas de ampliar sua dimensão, dando destaque aos aspectos da afro-americanidade e introduzindo elementos que aproximam e diferenciam esta parte da nossa história da história dos afro-descendentes em todo o continente. Sabemos que temos uma história comum não apenas entre África e Brasil, como entre os africanos e seus descendentes nascidos no Novo Mundo.

Sabemos que nossa memória constrói nossas percepções sobre nós mesmos e sobre os outros - voltando a dizer: constrói nossa identidade. Cabe a nós multiplicar iniciativas como esta e fazer com que haja desdobramentos concretos, e que se estimule a pesquisa, a formação, a produção sobre estes temas. Trata-se de resgatar a História da África e, de uma certa maneira, africanizar a História do Brasil.

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS

BÂ, Amadou Hampate. Amkouell, o menino fula. São Paulo: Palas Athena/Casa das Áfricas, 2003.

BELUCCI, Beluce. Introdução à História da África e da Cultura Afro-Brasileira. Rio de            Janeiro: CEAA-UCAM/CCBB, 2003.

CANEN, Ana. “Relações raciais e currículo. Reflexões a partir do multiculturalismo”. In: Cadernos Pedagógicos PENESB n. 3. Niterói: Editora da UFF, 2001, p.65-77.

LIMA, Mônica. “A África na sala de aula”. In: Nossa História nº4. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2004. p.84-87.

____________. “Fazendo soar os tambores: o ensino de História da África e dos africanos no Brasil”. In: Cadernos PENESB n. 5. Niterói: EdUFF, 2004. p.159-173.

MATTOS, Hebe. “O ensino de História e a luta contra a discriminação racial no Brasil”. In: ABREU, Martha e SOHIET, Rachel. Ensino de História. Conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: FAPERJ/Casa da Palavra, 2003. p.127-136.

MUNANGA, Kabengele. “Construção da identidade negra no contexto da globalização”. Cadernos PENESB, n. 4. Niterói: Editora da UFF, 2002. p.61-83.

OLIVER, Roland. A experiência africana. Da Pré-História aos dias atuais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

PRIORE, Mary del e VENÂNCIO, Renato (orgs.). Ancestrais: uma introdução à história da África Atlântica. Rio de Janeiro: Campus, 2004. REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil. A história do levante dos malês. São Paulo. Cia. das Letras, 2003 (reedição ampliada).

SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança. A África antes dos portugueses. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

______________________ . A manilha e o libambo. A África e a escravidão, de 1500  a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Fundação Biblioteca Nacional, 2002.

SLENNES, Robert. “Malungo, Ngoma vem! África coberta e descoberta no Brasil”. São Paulo, Revista da USP, n. 12, dez./jan./fev. 1991/1992, p. 48-67.

THORNTON, J. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2004.  

  

NOTAS:

* As idéias deste texto encontram-se desenvolvidas mais extensamente nos artigos da autora citados na  bibliografia.

1  Professora de História do Colégio de Aplicação da UFRJ (Ensino Fundamental e Médio) , de História da África nos cursos de Pós-Graduação do PENESB/UFF e na Universidade Cândido Mendes(UCAM) , doutoranda em História na Universidade Federal Fluminense(UFF).

2   Parecer CNE/CP 003/2004.

3   Os ENEH - Encontros Nacionais de Estudantes de História, que se faziam a cada dois anos.

4   O III Encontro Nacional de História da África, por exemplo, foi na cidade de Aquidauana - Mato Grosso do Sul.

5  A rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro, na gestão Benedita da Silva em 2002, promoveu curso de especialização em História da África para professores de História em Campos e no Rio de Janeiro, organizado pelo Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Candido Mendes, instituição com tradição neste ramo.

6  Como os cursos de Extensão e Especialização oferecidos pelo Programa de Estudos sobre o Negro na Sociedade Brasileira / PENESB da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense.

7  No dizer  de um importante historiador francês, Pierre Vilar, falar em ouro na Europa Medieval era falar da África ( em seu livro Oro y Moneda en  la História, 1450-1920. Barcelona, 1974. p.61)