Mãe
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Rita Elisa Seda |
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Uma criança pronta para nascer perguntou a Deus: |
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Rita Elisa Seda |
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Uma criança pronta para nascer perguntou a Deus: |
MEU FILHO
No dia em que esta velha já não seja mais a mesma, tenha paciência e me compreenda…
Quando vier a derramar comida em minha roupa ou a esquecer de amarrar meus sapatos, lembre-se das horas que passei ensinando-o a fazer as mesmas coisas…
Se ao conversar comigo, eu vier a repetir a mesma história, que você já sabe de cor como termina, não me interrompa e me escute… Quando você era pequeno, para que dormisse, tive que contar milhares de vezes as mesmas histórias, até que fechasse seus olhinhos.
Quando estivermos reunidos, se por ventura eu, sem querer, vier a fazer minhas necessidades, não sinta piedade de mim, compreenda que não tenho culpa por isso, pois já não posso mais controlá-las.
Pense em quantas vezes, quando você era pequenino, eu não o ajudei e fiquei pacientemente ao seu lado esperando que você terminasse o que estava fazendo
Não me recrimines por não querer tomar banho, nem me repreenda por isso. Lembre-se dos momentos em que tive que persegui-lo e nos mil pretextos que tive que inventar para fazer mais agradável seu asseio. Aceita-me e me perdoa, agora a criança sou eu.
Quando me vir atônita e desamparada em frente a todas as parafernálias tecnológicas, que não consigo entender, suplico que me dê todo o tempo que me seja necessário, sem me menosprezar com seu sorriso tolerante.
Lembre-se que fui eu quem lhe ensinou tantas coisas: comer, vestir-se e sua educação para enfrentar a vida tão bem como você faz, são produtos de meu esfôrço e perseverança.. e por meu amor a você.
Quando algumas vezes, ao conversarmos, eu vier a esquecer sobre o que estávamos falando, me dê o tempo necessário para que eu me lembre e, se eu não conseguir fazê-lo, não zombe de mim, talvez não fosse muito importante o que falávamos e eu me conforme em que só me escute nesse momento.
Se alguma vez eu não quiser comer, não insista, sei quando posso e quanto devo comer… compreenda também que com o tempo já não tenho dentes para morder, nem paladar para saborear.
Quando minhas pernas falharem por eu estar cansada para andar, dê-me sua mão terna para que eu me apóie, como fiz quando você começou a caminhar com suas pernas gordinhas e frágeis.
Finalmente, quando algum dia me ouvir dizer que já não quero mais viver e só quero morrer, não se aborreça… algum dia irá entender que isso não tem nada a ver com seu carinho ou com quanto eu o ame… tente compreender que já não vivo, senão sobrevivo e isso não é viver.
Sempre quis o melhor para você e preparei os caminhos que você deveria percorrer, pensa então que com esse passo que me adiando em dar, estarei construindo para você uma outra rota em um outro tempo, mas sempre com você.
Não se sinta triste ou impotente por me ver como me vê, me dê seu coração.
Compreenda-me e faça como fiz quando você começou a viver, da mesma maneira como acompanhei em seu caminho, rogo-lhe que me acompanhe até terminar o meu, dando-me amor e paciência, que eu lhe devolverei em gratidão e sorrisos, com o imenso amor que tenho por você.
Uma Carta Para Maria
Carta escrita por Herbert de Souza (o Betinho) para sua mulher Maria e lida, um ano após sua morte, pelo ator Jonas Bloch, durante a cerimônia no CCBB:
“Este texto é para Maria ler depois da minha morte que, segundo meus cálculos, não deve demorar muito. É uma declaração de amor.
Não tenho pressa em morrer, assim como não tenho pressa em terminar esta carta. Vou voltar a ela quantas vezes puder e trabalhar com carinho e cuidado cada palavra. Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados. Não quero triste, quero fazer dela também um pedaço de vida pela via de lembrança que é a nossa eternidade. Nos conhecemos nas reuniões de AP (Ação Popular), em 1970, em pleno Maoísmo. Havia uma clima de sectarismo e medo nada propício para o amor.
Antes de me aventurar andei fazendo umas sondagens e os sinais eram animadores, apesar de misteriosos. Mas tínhamos que começar o namoro de alguma forma. Foi no ônibus da Vila das Belezas, em São Paulo. Saímos em direção ao fim da linha como quem busca um começo. E aí veio o primeiro beijo, sem jeito, espremido, mas gostoso, um beijo público. A barreira da distância estava rompida para dar começo a uma relação que já completou 26 anos!
O Maoísmo estava na China, nosso amor na São João. Era muito mais forte que qualquer ideologia. Era a vida em nós, tão sacrificada na clandestinidade sem sentido e sem futuro. Fomos viver em um quarto e cozinha, minúsculos, nos fundos de uma casa pobre, perto da Igreja da Penha. No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais. Mas como fizemos amor naquele tempo! Foi incrível e seguramente nunca tivemos tanto prazer.
Tempos de chumbo, de medo, de susto e insegurança. Medo de dia, amor de noite. Assim vivemos por quase um ano. Até que tudo começou a “cair”. Prisões, torturas, polícia por toda a parte, o inferno na nossa frente. Fomos para o Chile. E ali, chamado por Garcez para
elaborar textos, acabei no agrado de Allende, que os usou em seus discursos oficiais. Foi a primeira vez que eu vi amor virar discurso politico… Depois passamos por muita coisa até voltar. Até que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil?
Foi um turbilhão de emoções: o sonho virou realidade! Era verdade, o Brasil era nosso de novo. A primeira coisa foi comer tudo que não havíamos comido no exílio: angu! com galinha ao molho pardo, quiabo com carne moída, chuchu com maxixe, abóbora, cozido, feijoada. Um
festival de saudades culinárias, um reencontro com o Brasil pela boca.
Uma das maiores emoções da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de você. Emoção sem fim e sem limite que me fez reencontrar a infância.
Depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalhávamos; viajávamos nas férias, visitávamos os amigos, o Ibase funcionava, até a hemofilia parecia que havia dado uma trégua. Henrique crescia, Daniel aos poucos se reaproximava de mim, já como filho e amigo.
Mas como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei. A Aids. Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos. O pânico foi geral. Eu, é claro, havia entrado nessa. Não bastava ter nascido mineiro, católico, hemofílico, maoísta e meio deficiente físico.
Era necessário entrar na onda mundial, na praga do século, mortal, definitiva, sem cura, sem futuro e fatal. E foi aí que você, mais do que nunca, revelou que é capaz de superar a tragédia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado. A Aids selou um
amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, a tentação do desespero, o desânimo diante do futuro. Continuar tudo apesar de tudo, o beijo, o carinho e a sensualidade.
Assumi publicamente minha condição de soropositivo e você me acompanhou. Nunca pôs um “senão” ou um comentário sobre cuidados necessários. Deu a mão e seguiu junto como se fosse metade de mim, inseparável. E foi. Desde os tempos do cólera, da não esperança, da morte do Henfil e Chico, passando pelas crises que beiravam a morte até o coquetel que reabria as esperanças. Tempo curto para descrever, mas uma eternidade para se viver.
Um dos maiores problemas da Aids é o sexo. Ter relações com todos os cuidados ou não ter? Todos os cuidados são suficientes ou não se deve correr riscos com a pessoa amada? Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas até sexo nenhum, só carinho. Preferi a segurança total ao mínimo risco.
Parei, paramos e sem dramas, com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da música, da boa comida, da literatura, da invenção, dos pequenos prazeres e da paz. Viver é muito mais que fazer sexo. Mas para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi.
Para se falar de uma pessoa com total liberdade é necessário que uma esteja morta e eu sei que este será o meu caso. Irei ao meu enterro sem grandes penas e principalmente sem trabalho, carregado. Não tenho curiosidade para saber quando, mas sei que não demora muito.
Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte não é ocasião para se chorar, mas para celebrar um fim, uma história.Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas, é morrer muitas vezes em uma só. Morrer sem o outro é partir sozinho. O olhar do outro é que te faz viver e descansar em paz.O ideal é que pudesse morrer na minha cama e sem dor, tomando um saquê gelado, um bom vinho português ou uma cerveja gelada.
Te amo para sempre,
Betinho,
Itatiaia, janeiro de 1997″
Extraída do “Jornal da Orla” de Santos, SP, ao dia 24 janeiro 1999.
“Temos sociólogos bons e medíocres. Uns acabam professores, outros presidentes da República” (Herbert de Souza, sociólogo)
TRÊS MULHERES
OLGA BENÁRIO, FRIDA KAHLO E VIRGINIA WOOLF:
VALENTES, CONQUISTADORAS DA SUA ESSÊNCIA
Três mulheres que acreditavam…
Olga Benário acreditou no AMOR
Frida Kahlo acreditou na VIDA
Virgínia Woolf acreditou nos seus PENSAMENTOS
Mulheres sinceras consigo mesmas, capazes de movimentar as suas vidas a partir das suas angústias pessoais, sem respostas e sem um fio condutor. Jorros de pensamentos, de criatividade, de atos corajosos e determinados, de idealismos. Movidas por sua essência, suas verdades.
Mulheres “intrusas” num tempo de homens. Mas que deixaram marcas essencialmente femininas. Olga, Frida, Virgínia, mantiveram-se inteiras até o fim! Souberam viver e morrer.
Acreditaram em si mesmas, no que pensavam, no que sentiam. Não podemos fugir do que somos, nem do que pensamos. Podemos sim, fugir daquilo que os outros desejam que sejamos, ou pensemos.
A força do ser humano vem do ACREDITAR (creditum= confiança) e da segurança que isso traz. Três mulheres que, entre tantas outras, acreditaram em si mesmas.
FRIDA acreditou na vida, tanto, tanto, que expressou, através da arte, a sua própria realidade: sua imagem, suas dores, suas cores, medos, seu corpo de mulher, destroçado. Não se comoveu com a auto-piedade.
“Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei minha própria realidade“.
OLGA acreditou no sentimento que leva o ser humano à plenitude: o amor. E por ele, e através dele, enfrentou corajosamente as atrocidades da guerra, e não permitiu que ele fosse destruído.
“Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão por que se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue”. (Trecho da carta de despedida, escrita por Olga)
VIRGINIA acreditou na Alma, na SUA Alma, nas sutilezas e detalhes. Observou tantos desencontros entre as suas verdades e as verdades proferidas pelas pessoas que queriam decidir por ela!
“… Não deixou peças ou poemas pelos quais possamos julgá-la.”
As pessoas que homenagearam meu blog com o selo, quero agradecer e comunicar o por quê de não ter colocado no blog: simplesmente o blog.com tem tempo que não aceita imagem e no momento é isso que esta acontecendo.
Obrigada de coração!
Maria Machado, A Livreira