O Casal quase perfeito

Um brinde ao respeito, a fidelidade e ao amor

O Casal quase perfeito

O casamento quase perfeito é a união de duas liberdades.
O homem é livre. A mulher é livre.
Mas o amor é tão forte, que os dois consideram a sua união um bem maior
do que a sua liberdade.
E renunciam a tudo para ter filhos e vê-los crescer com amor.

Não existe casamento perfeito.
O máximo que um casal consegue é um casamento quase perfeito.
Um casal chega a isso quando praticamente tudo entre os dois é harmonioso.
Um sabe o que machuca o outro e, por isso,
evitam palavras, gestos ou atitudes que ferem o outro cônjuge.

Os dois se esforçam para errar o menos possível.
Mas quando o erro acontece, por menor que seja, quem o cometeu sabe pedir perdão
e quem foi vítima sabe perdoar.

Tudo leva ao diálogo.
Tanto o marido como a mulher são gentis e bem-educados um com o outro,
não importa se estão perto ou longe dos outros.
Não há artificialismo, não há fingimento, não há faz de conta.
Seu amor é tão claro, que tudo o que ajuda o amor a crescer torna-se lógico e natural.

O casal quase perfeito tem pecados e imperfeições,
mas as qualidades são sempre mais visíveis.
Feitas as contas, os dois têm mais qualidades que defeitos, mais virtudes que vícios,
mais acertos que erros.
Não precisam se suportar, porque se amam e sentem prazer de estar juntos.

Os problemas normais da vida, em comum,
parecem o preço justo que pagam para ter tamanho amor.
E a vida se torna um bem curto e passageiro quando as pessoas se amam como eles.
Aproveitam tudo e aprendem com tudo.
Até com suas pequenas brigas de reajuste.
Exercício imenso de humildade, o casamento feliz consiste em dizer:

“Não posso e não quero viver sem você. Poderia e conseguiria, se quisesse,
mas seria tolice desperdiçar o que você me dá.
Nada vale mais do que o nosso amor.
Eu não quero ser livre. Quero você por dentro”.

Excluídos alguns direitos, também são assim as amizades perfeitas.
Só que o casamento é mais perfeito. É doação maior e vai mais fundo.
Mas é, antes de tudo, uma amizade que, de tão boa,
desembocou na decisão do casamento.
E ai dos casados que não são, antes de tudo, amigos e conselheiros um do outro.

A sociedade atual supervalorizou os direitos da pessoa,
em detrimento dos direitos da família.
Por isso, os casamentos andam tão imperfeitos.
Tirar o máximo de prazer de outro e dar o mínimo necessário é um mau negócio.
Está longe de ser uma decisão inteligente.
E é exatamente o que muitos homens e mulheres fazem.
Não servem um ao outro e os dois aos filhos; servem-se um do outro.

O divórcio moderno é uma instituição muito velha, tão antiga quanto o casamento infeliz.
E tem muito a ver com a insatisfação dos cônjuges.
Não tem a ver com o amor, mas com o desamor.
Casar é algo divino, mas corre o risco com o desamor.
Casar é algo divino, mas corre o risco de ser passageiro demais.
Se faltar Deus, falta tudo…

Só tem chance o casal que fundou sua casa sobre a rocha.
Nem vento, nem chuva, nem contratempo algum a derrubou,
porque os construtores queriam que durasse.
E souberam cosntruí-la.
É desses casamentos que um povo precisa.
O casal imperfeito demais não resiste.
O perfeito demais é uma farsa.
Só o quase perfeito tem chance.
É realista e sadio.
Continua a trabalhar no casamento como se fosse a obra-prima de suas vidas,
que só estará concluída quando um dos dois partir para a eternidade.

O casamento quase perfeito é quase eterno.
Só não o é porque a morte existe.
Essa é a doutrina dos católicos romanos.

Pe. Zezinho, scj



A Língua mordida

FÁBULAS DE LEONARDO DA VINCI

“A Língua mordida pelos dentes

Era uma vez um rapaz que tinha o vício de falar mais do que devia.
- Que língua! – Suspiravam, um dia, os dentes. - Nunca está quieta! Nunca se cala!
- Que estão vocês a murmurar? – Replicou a língua com arrogância. –Vós, os dentes, não sois mais do que servos unicamente encarregados de mastigar os alimentos que eu escolho. Entre nós não há nada em comum e não vos permito que se metam nos meus assuntos.
Deste modo, o rapaz continuava a dizer coisas que não vinham a propósito, enquanto a língua, feliz, conhecia todos os dias novas palavras.
Um dia, o rapaz depois de ter feito uma tolice autorizou que a língua dissesse uma grande mentira. Mas os dentes, obedecendo ao coração, morderam-na.
A língua ficou corada de sangue e o rapaz, arrependido, corou de vergonha.
Desde aquele dia a língua tornou-se cautelosa e prudente e antes de falar pensava duas vezes.”


A Figueira

Fábulas de Leonardo da Vinci

“A Figueira
Era uma vez uma figueira que não dava figos. Toda a gente que passava perto nunca olhava para ela.
Na Primavera nasciam-lhe folhas, mas, no Verão, quando as outras árvores se carregavam de frutos, nos ramos de figueira não aparecia nenhum figo.
- Gostava tanto que os homens me elogiassem – suspirava a figueira –Bastava que eu desse frutos como as outras árvores.
Então, num certo Verão, também ela apareceu carregada de frutos. O Sol fê-los crescer. Amadureceu-os e deu-lhes um doce sabor.
Os homens repararam nela. Nunca tinham visto uma figueira com tantos figos. Apostaram entre si quem seria capaz de colher mais frutos.
Amarinharam pelo tronco e com paus dobraram os ramos mais altos dos quais muitos se partiram com o peso, todos queriam provar aquelesfigos deliciosos e, por isso, pouco tempo depois, a pobre figueira estava destruída com todos os ramos partidos.”


A casa sonolenta - Audrey Wood

A história infantil A Casa Sonolenta, um texto narrativo e descritivo, é mais um bom exemplo de como a seqüência é fundamental para que se estabeleça a coerência textual.

Era uma vez
uma casa sonolenta
onde todos viviam dormindo

Nessa casa
tinha uma cama
uma cama aconchegante,
numa casa sonolenta,
onde todos viviam dormindo.
Nessa cama
tinha uma avó,
uma avó roncando,
numa cama aconchegante,
numa casa sonolenta,
onde todos viviam dormindo.

Em cima dessa avó
tinha um menino,
um menino sonhando,
em cima de uma avó roncando,
numa cama aconchegante,
numa casa sonolenta,
onde todos viviam dormindo.

Em cima desse menino
tinha um cachorro,
um cachorro cochilando,
em cima de um menino sonhando,
em cima de uma avó roncando,
numa cama aconchegante,
numa casa sonolenta,
onde todos viviam dormindo.

Em cima desse cachorro tinha um gato
um gato ressonando,
em cima de um cachorro cochilando,
em cima de um menino sonhando,
em cima de uma avó roncando,
numa cama aconchegante,
numa casa sonolenta,
onde todos viviam dormindo.

Em cima desse gato
tinha um rato,
um rato dormitando,
em cima de um gato ressonando,
em cima de um cachorro cochilando,
em cima de um menino sonhando,
em cima de uma avó roncando,
numa cama aconchegante,
numa casa sonolenta,
onde todos viviam dormindo.

E em cima desse rato
tinha uma pulga…

Será possível?
Um pulga acordada,
que picou o rato,
que assustou o gato,
que arranhou o cachorro,
que caiu sobre o menino,
que deu um susto na avó,
que quebrou a cama,
numa casa sonolenta,
onde ninguém mais estava dormindo.

AUDREY WOOD

A história se estrutura com base em dois momentos:

1º momento - todos estão dormindo.
2º momento - todos acordam, cada um por sua vez, movidos pela ação da pulga.

A coerência, na primeira parte, se dá pela escolha de vocábulos do campo semântico de dormir - cama, sonolenta, aconchegante, roncando, sonhando, ressonando, dormitando, cochilando. Não houve repetição de nenhum verbo, e cada um deles foi combinado coerentemente com cada habitante da casa. O caráter descritivo desta parte se apóia em adjetivos (caracterizando os seres inanimados) e verbos no gerúndio e pretérito imperfeito (atribuídos aos seres animados).

A segunda parte do texto apresenta a mudança desencadeada a partir da picada da pulga. Os verbos estão no pretérito perfeito, marcando a ação finalizada.

casa sonolenta
casa acordada
dormindo
roncando
sonhando
ressonando
cochilando
viviam
tinha
picou
assustou
arranhou
caiu
deu
quebrou

 

http://acd.ufrj.br/~pead/tema09/textoecoerencia.html



O tio aquático

 

O TIO AQUÁTICO

Os primeiros vertebrados, que no Carbonífero deixaram a vida aquá tica pela vida terrestre, derivavam dos peixes ósseos pulmonados, cujas nadadeiras podiam ser roladas

sob o corpo e usadas como patas sobre a terra.

Agora já estava claro que os tempos aquá ticos haviam terminado, recordou o velho

Qfwfq, e aqueles que se decidiam a dar o grande passo eram sempre em número
maior, não havendo famí lia que não tivesse algum dos seus entes queridos lá no seco; todos contavam coisas extraordinárias sobre o que se podia fazer em terra firme, e chamavam os parentes. Ent ão, os peixes jovens, já não era mais possível segur á-los;

agitavam as nadadeiras nas margens lodosas para ver se funcionavam como patas,

como haviam conseguido fazer os mais dotados. Mas precisamente naqueles tempos

se acentuavam as diferenças entre nó s: existia a família que vivia em terra havia várias gerações e cujos jovens ostentavam maneiras que j á não eram de anf íbios mas quase de r épteis; e existiam aqueles que ainda insistiam em bancar o peixe e assim

se tornavam ainda mais peixes do que quando se usava ser peixe.

(..)

Daquela vez a visita à lagoa foi mais longa. Estendemo-nos os trê s sobre uma das margens em declive: o tio mais para o lado da água, mas nó s também a meio banho, de tal maneira que se alguém nos visse de longe, estirados uns ao lado dos outros, não saberia dizer quem era terrestre e quem aquático. O peixe atacou um de seus refrãos preferidos: a superioridade da respira ção na água sobre a respiração a érea, com todo o repertório de suas difama ções. Agora LII toma as dores e lhe d á o merecido troco!, pensava. Mas eis que se viu aquele dia que LII usava uma outra tática: discutia com ardor, defendendo nossos pontos de vista, mas ao mesmo tempo levando muito a s ério os argumentos do velho N ba Nga. As terras emersas, segundo o tio, eram um fenômeno limitado: iriam desaparecer assim como vieram à tona, ou, de qualquer forma, ficariam sujeitas a muta ções contínuas: vulcões, glacia ções, terremotos, enrugamentos do terreno, mutações de clima e de vegetação. E nossa vida nesse meio devia enfrentar transforma ções contínuas, mediante as quais populações inteiras iriam desaparecer, e só haveria de sobreviver quem estivesse disposto a modificar de tal forma a base de sua existência, que as razões anteriormente passí veis de tornar a vida bela de viver seriam completamente transtornadas e esquecidas.

Calvino, I (1994). As Cosmicômicas, São Paulo, Companhia das Letras, p. 71-83.



Mar português

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, Obra poética,

Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1990

 Esse célebre poema de Fernando Pessoa, extraído da obra Mensagem, refere-se às dificuldades vividas

pelos portugueses para a conquista dos mares no século XV. As mães chorando, os filhos rezandoem v

ão e as noivas sem casar representam o sofrimento do povo com a morte de centenas de marinheiros

nas Grandes Navegações.



a história do beijo

A história do beijo


 

Os historiadores não sabem muito sobre a história inicial do beijo. Quatro textos em Sânscrito Védico, escritos na Índia por volta de 1500 a.C., parecem descrever pessoas se beijando. Isso não significa que ninguém tenha se beijado antes, nem que os indianos tenham sido os primeiros a se beijar. Os artistas e escritores podem ter considerado o beijo particular demais para ser descrito na arte ou literatura.

Após sua primeira menção por escrito, o beijo não apareceu muito na arte ou na literatura por algumas centenas de anos. O poema épico indiano “Mahabharata” descreve o beijo nos lábios como um sinal de afeto. O “Mahabharata” foi transmitido oralmente por milhares de anos antes de ser escrito e padronizado, em torno de 350 d.C. O texto religioso indiano “Vatsyayana Kamasutram”, ou o “Kama Sutra”, também descreve uma variedade de beijos. Ele foi escrito no século VI d.C. Os antropólogos que acreditam que o beijo é um comportamento aprendido afirmam que os gregos souberam sobre ele quando Alexandre, o Grande, invadiu a Índia em 326 a.C.

O beijo entre os índios, no Brasil

Os casais indígenas não andam de mãos dadas, nem abraçados, nem se beijam. O afeto é demonstrado de outras maneiras. Os índios Krahó, a mulher pinta o corpo do marido de urucum e carvão, tira-lhe os piolhos do cabelo, tira-lhe os cílios e as sobrancelhas. Ao cair da tarde, o casal estende uma esteira no chão, fora de casa, e ficam sentados sobre ela, fumando ou conversando.

Não há muitos registros sobre os beijos no mundo ocidental até a época do Império Romano. Os romanos costumavam usar o beijo para cumprimentar amigos e familiares. Os cidadãos beijavam a mão do Imperador e, naturalmente, as pessoas beijavam seus parceiros. Os romanos tinham três categorias para o beijo:

  • osculum era um beijo na bochecha
  • basium era um beijo nos lábios
  • savolium era um beijo profundo

Beijando debaixo do azevinho

Hoje em dia, algumas pessoas passam o período de estas debaixo de um azevinho na esperança de beijar alguém que passe por ele. Mas até 1400, beijar sob um azevinho significava compromisso entre o casal. 

 

Os romanos também iniciaram várias tradições relacionadas ao beijo que perduram até hoje. Na Roma antiga, os casais ficavam noivos beijando-se apaixonadamente na frente de um grupo de pessoas. Essa é, provavelmente, uma das razões pelas quais os casais modernos se beijam ao final de cerimônias de casamento. Além disso, embora a maioria das pessoas pense que somente cartas de amor são “seladas com um beijo”, os beijos foram utilizados para selar contratos jurídicos e comerciais. Os antigos romanos também costumavam beijar como parte de suas campanhas políticas. No entanto, vários escândalos de “beijos por votos” na Inglaterra do século XVIII levaram, teoricamente, os candidatos a beijar somente jovens e idosos.


O beijo no final de casamentos provavelmente teve sua origem nas tradições da Roma antiga

O beijo também teve sua função nos primórdios da Igreja Cristã. Os cristãos com freqüência se cumprimentavam com um osculum pacis, ou beijo sagrado. De acordo com essa tradição, o beijo sagrado causava uma transferência de espírito entre as duas pessoas que se beijavam. A maioria dos pesquisadores acredita que o objetivo desse beijo era estabelecer vínculos familiares entre os membros da igreja e fortalecer a comunidade.

Até 1528, o beijo sagrado era parte da missa católica. No século XIII, a Igreja Católica o substituiu por um cumprimento de paz. A Reforma Protestante no século XVI removeu totalmente o beijo da prática protestante. Na verdade, o beijo sagrado não exercia uma função na prática católica religiosa moderna, embora alguns cristãos beijem símbolos religiosos, como o anel do Papa, por exemplo.

Embora atualmente, poucos  religiosos incorporem o beijo sagrado, o beijo ainda prevalece na cultura ocidental. Hoje em dia, as pessoas se beijam em várias situações por motivos diversos.

Mas nem todos os beijos são felizes. Obras da literatura como “Romeu e Julieta” descreveram beijos como “perigosos” ou “mortais” quando compartilhado com as pessoas erradas. Alguns estudiosos do folclore e críticos literários vêem o vampirismo como um símbolo dos perigos físicos e emocionais decorrentes de se beijar a pessoa errada.

Atualmente, a maioria das culturas em todo o mundo pratica o beijo, mas possui diferentes opiniões sobre quando e onde o beijo é apropriado. Nos anos 90, vários artigos na mídia relatavam uma tendência entre os jovens de beijar em público no Japão, um país onde o beijo tradicionalmente era visto como uma atividade privada.

Em seguida, analisaremos a anatomia e fisiologia envolvidas no beijo.

 

O beijo de Judas

Um dos beijos mais famosos do mundo ocidental foi o beijo de Judas Iscariotes usado para trair Jesus antes da crucificação. Esse beijo teve forte influência sobre as práticas espirituais cristãs. Grupos da igreja logo omitiram o beijo sagrado, ou se abstiveram por completo de beijar na Quinta-Feira Santa. A Quinta-Feira Santa é a quinta antes da Páscoa e o dia utilizado para comemorar a Última Ceia, após a qual Judas traiu Jesus nos Jardins do Getsêmani.



O homem sem sorte

Vivia perto de uma aldeia um homem, um homem que era completamente sem sorte.

Nada do que ele fazia dava certo.

Muitas vezes ele plantava sementes e o vento vinha e as levava,

outras vezes, era a chuva, que vinha tão violenta e carregava as sementes.

Outras vezes ainda, as sementes permaneciam sob a terra,  

mas o sol, era tão quente, que as cozinhava.

E ele se queixava com as pessoas e as pessoas escutavam suas queixas,

da primeira vez com simpatia, depois com um certo desconforto

e enfim quando o viam mudavam de caminho,

ou entravam para dentro de suas casas fechando portas e janelas, evitando-o.

Então além de sem sorte, o homem se tornou chato e muito só.

Ele começou a querer achar um culpado para o que acontecia com ele.

Analisando a situação de sua família percebeu que seu pai era um homem de sorte,

sua mãe, esta tinha sorte por ter se casado com seu pai,  

e seus irmãos eram muito bem sucedidos, pois então,

se não era um caso genético, só poderia ser coisa do Criador.

E depois de muito pensar resolveu tomar uma atitude

e ir até o fim do mundo falar com o Criador,

que como Criador de tudo, deveria ter uma resposta.

Arrumou sua malinha, algum alimento e partiu rumo ao fim do mundo.

Andou um dia, um mês, um ano e um dia,  

e pouco antes de entrar numa grande floresta ouviu uma voz:

- Moço, me ajude.

Ele então olhou para os lados procurando alguém.

 Até que se deparou com um lobo, magro, quase sem pelos, era pele e osso o infeliz.  

Dava para contar suas costelas. Ele falou:

- Há três meses estou nesta situação. Não sei o que está acontecendo comigo.

Não tenho forças para me levantar daqui.

O homem refeito do susto respondeu:

- Você está se queixando à toa… Eu tive azar a vida inteira.  O que são três meses?

Mas faça como eu. Procure uma resposta.

Eu estou indo procurar o Criador para resolver o meu problema.

- Se eu não tenho forças nem para ir ao rio beber água… Faça este favor para mim.

Você está indo vê-lo, pergunte o que está acontecendo comigo.

O homem fez um sinal de insatisfação  

e disse que estava muito preocupado com seu problema,

mas se lembrasse, perguntaria.

Virando as costas, continuou seu caminho.

Andou um dia, um mês, um ano e um dia e de repente, ao tropeçar numa raiz, ouviu:

- Moço, cuidado.

E quando olhou, viu uma folhinha que vinha caindo, caindo…

Olhando para cima viu que a árvore com apenas duas folhinhas.

Levantou-se e observando suas raízes desenterradas, seus galhos retorcidos,

sua casca soltando-se do tronco , falou:

- Você não se envergonha ? Olhe as outras árvores a sua volta

e diga se você pode ser chamada de árvore? Conserte sua postura.

A árvore, com uma voz de muita dor, disse:

- Não sei o que está acontecendo comigo. Estou me sentindo tão doente.

Há seis meses que minhas folhas estão caindo, e agora, como vês, só restam duas…

E, no fim de uma conversa, pediu ao homem que procurasse uma solução com o Criador.

Contrariado, o homem virou as costas com mais uma incumbência.

Andou um dia, um mês, um ano e um dia e chegou a um vale muito florido,

com flores de todas as cores e perfumes.

Mas o  homem não reparou nisto.  

Chegou até uma casa e na frente da casa

estava uma moça muito bonita que o convidou a entrar.

Eles conversaram longamente e quando o homem deu por si já era madrugada.  

Ele se levantou dizendo que não podia perder tempo

e quando já estava saindo ela lhe pediu um favor:

- Você que vai procurar o Criador , podia perguntar uma coisa para mim?

É que de vez em quando sinto um vazio no peito, que não tem motivo, nem explicação.

Gostaria de saber o que é e o que posso fazer por isto.

O homem prometeu que perguntaria e virou as costas e andou um dia,

um mês,  um ano e um dia e chegou por fim ao fim do mundo.

Sentou-se e ficou esperando até que ouviu uma voz.

E uma voz no fim do mundo, só podia ser a voz do criador.

- Tenho muitos nomes. Chamam-me também de Criador…

E o homem contou então toda a sua triste vida .  

Conversou longamente com a voz até que se levantou

e virando as costas foi saindo, quando a voz lhe perguntou:

- Você não está se esquecendo de nada?

Não ficou de saber respostas para uma árvore,  para um lobo e para uma jovem?

- Tem razão…

E voltou-se para ouvir o que tinha que ser dito.

Depois de um tempinho virou-se e correu…

mais rápido que o vento até que chegou na casa da jovem.

Como ela estava em frente à casa vendo-o passar chamou:

- Ei!!! Você conseguiu encontrar o Criador? Teve as respostas que queria?

- Sim!!! Claro! O Criador disse que minha sorte está muito no mundo.

Basta ficar alerta para perceber a hora de apanhá-la!

- E quanto a mim, você teve a chance de fazer a minha pergunta?

- Ah! O Criador disse que o que você sente é solidão.

Assim que encontrar um companheiro vai ser completamente feliz,

e mais feliz ainda vai ser o seu companheiro.

A jovem então abriu um sorriso e perguntou ao homem se ele queria ser este companheiro.

- Claro que não… Já trouxe a sua resposta….  

Não posso ficar aqui perdendo tempo com você.

Não foi para ficar aqui que fiz toda esta jornada. Adeus!!!

E virando as costas correu, mais rápido do que a água,  

até a floresta onde estava a árvore.

Ele nem se lembrava dela.

Mas quando novamente tropeçou em sua raiz, viu caindo uma última folhinha.

Ela perguntou se ele tinha uma resposta, ao que o Homem respondeu:

- Tenho muita pressa e vou ser breve, pois estou indo em busca de minha sorte,

e ela está no mundo.

O Criador disse que você tem embaixo de suas raízes

uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro.

O ferro desta caixa está corroendo suas raízes.

Se você cavar e tirar este  tesouro daí vai terminar todo o seu sofrimento

e você vai poder virar uma árvore saudável novamente.

- Por favor !!!Faça isto por mim!!! Você pode ficar com o tesouro.

Ele não serve para mim. Eu só quero de novo minha força e energia.

O homem deu um pulo e falou indignado:

- Você está me achando com cara de quê? Já trouxe a resposta para você.

Agora resolva o seu problema.

O Criador falou que minha sorte está no mundo

e eu não posso perder tempo aqui conversando com você,

muito menos sujando minhas mãos na terra.

E virando as costas correu,  mais rápido do que a luz atravessou a floresta,

e chegou onde estava o lobo, mais magro ainda e mais fraco.

O homem se dirigiu a ele apressadamente e disse:

- O Criador mandou lhe falar que você não está doente.

O que você tem é fome. Está a morrer de inanição,

e como não tem forças mais para sair e caçar, vai morrer ai mesmo.

A não ser, que passe por aqui uma criatura bastante estúpida, e você consiga comê-la…

E nesse momento, os olhos do lobo se encheram de um brilho estranho,  

e reunindo o restante de suas forças, o lobo deu um pulo e comeu o homem sem sorte.

Cecília Andrès e Gyslaine Matos



A crônica - gírias

Alguns endereços na Web onde há gírias:
http://www.felipex.com.br/glossario_policial01.htm
http://www.felipex.com.br/palavras_palavras.htm
http://www.felipex.com.br/expres_interes01.htm
http://www.felipex.com.br/dic_terc_setor.htm
http://www.felipex.com.br/fl_glos_ubanda.htm
http://www.felipex.com.br/palavr_expres.htm
http://www.felipex.com.br/dic_peao.htm

A Crônica

Na década de 50, o malandro carioca “Zé da Ilha” prestou o seguinte depoimento à polícia:

“Seu doutor, o patuá é o seguinte: Depois de um gêlo da coitadinha resolvi esquinar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho no sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira e
troquei por centavos um embrulhador. Quando então vi as novas do embrulhador, plantado com um poste bem na quebrada da rua, veio uma pára-quedas se abrindo, eu dei a dica, ela bolou, eu fiz a pista, colei; solei, ela aí bronquiou, eu chutei, bronquiou mas foi na despista, porque, muito vivaldina, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando.

Morando na jogada, o Zezinho aqui ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarraão dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei ingrupir o pagante, mas, sem esperar, recebi um cataplum no pé do ouvido. Aí
dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muqueada nos mordedores e taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança pondo-o por terra.
Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai, muito esperto, virou pulga e fêz a duquerque, pois o vermelho não combina com a côr do meu linho. Durante o boogi, uns e outros me disseram que o sueco era
tira e que iria me fechar o paletó. Não tenho vocaão para presunto e corri.

Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem no vazio da Lapa, precisamente às 15 para a côr-da-rosa. Como desde a matina não tinha engolido a gordura, o roque do meu pandeiro estava sugerindo sarro. Entrei
no china-pau e pedi um boi a mossoró com confeti de casamento e uma barriguda bem morta. Engoli a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa prá botá na pindura que depois eu iria esquentar aquela fria.

Ia pirar quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do Mangue, foi direto ao médico-legal para me escolachar. Eu sou preto mas não sou Gato Félix, me queimei e puxei a solingea. Fiz uma avenida na epiderme do moço.

Êle virou logo América. Aproveitei a confusa para me pirar mas um dedo-duro me apontou aos xifópagos e por isto estou aqui.”

Tradução “malandrês-português”:

 

 

patuá

 

forma giriática para substituir “o negócio”, “a questão”, “o problema”.

 

gêlo

 

desprezo

 

esquinar

 

ficar parado em esquinas, à espera de algo

 

cabrocha

 

mulher

 

que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho no sabão

 

que cozinhasse para mim e lavasse a minha roupa

 

bordejava pelas vias

 

perambulava pelas ruas

 

abasteci a caveira

 

tomei uma bebida - uma cachaça

 

troquei por centavos um embrulhador

 

comprei um jornal

 

na quebrada da rua

 

na esquina

 

veio uma pára-quedas se abrindo

 

veio uma mulher demonstrando interesse pelo malandro

 

eu dei a dica

 

o malandro dirigiu um gracejo à mulher

 

ela bolou

 

a mulher foi receptiva à lisonja do malandro

 

eu fiz a pista

 

acompanhei-a

 

colei

 

aproximei-me, caminhando ao lado da mulher

 

solei

 

conversei com a mulher

 

bronquiou

 

demonstrou com palavras iradas, o seu desagrado

 

vivaldina

 

viva, esperta, inteligente

 

o cargueiro estava lhe comboiando

 

o namorado a estava acompanhando

 

morando na jogada

 

compreendendo a situação

 

o Zezinho aqui

 

forma do malandro referir-se a si mesmo

 

o cargueiro jogou a amarração

 

o namorado se aproximou dela

 

um cataplum no pé do ouvido

 

um soco ou bofetada na orelha

 

dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça

 

dei-lhe um pontapé no joelho

 

uma muqueada nos mordedores

 

forma de muque - um soco nos dentes

 

taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança

 

saltei-lhe com os dois pés sobre o peito

 

ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas

 

sacou o revólver e fez dois disparos

 

papai

 

(outra forma do malandro referir-se a si mesmo)

 

virou pulga

 

deu um salto

 

fêz a dunquerque

 

evadiu-se, fugiu (alusão à famosa retirada de dunquerque, na Segunda Guerra Mundial)

 

vermelho não combina com a cor do meu linho

 

referia-se ao vermelho do sangue

 

tira

 

policial, detetive, investigador.

 

fechar o paletó

 

matar

 

não tenho vocação prá presunto

 

referia-se ao seu apego à vida

 

borracha grande

 

ônibus

 

no fim do carretel

 

no fim da linha, no ponto final

 

bem no vazio da lapa

 

no Largo da Lapa

 

às 15 para a côr de rosa

 

às 17 horas e 45 minutos

 

matina

 

manhã (observe-se a influência do elemento imigrante através desse vocábulo italiano)

 

o roque do meu pandeiro

 

o ruído do meu estômago

 

china-pau

 

“china” - (pequenos restaurantes chineses que serviam pratos a preços populares, na época, muito comuns no Rio de Janeiro)

 

boi a mossoró com confeti de casamento

 

bife a cavalo com arroz

 

e uma barriguda bem morta

 

cerveja bem gelada

 

como o meu era nenhum

 

como não tinha dinheiro…

 

pedi ao caixa prá botá na pindura que depois eu iria esquentar aquela fria

 

pedi ao caixa um crédito, dizendo-lhe que pagaria a despesa mais tarde.

 

dizendo que eu era produto do mangue

 

o Mangue é um dos prostíbulos do Rio de Janeiro - (curioso notar o eufemismo desta construção)

 

me queimei e puxei a solingea

 

irritei-me e saquei a navalha (a marca do instrumento Solingen, passou a sinônimo de navalha)

 

fiz uma avenida na epiderme do moço

 

fiz um talho na pele…

 

êle virou logo américa

 

ficou vermelho como sangue (América Futebol Clube, cujo uniforme se compõe de camisas vermelhas)

 

dedo-duro

 

delator

 

xifópagos

 

policiais do Rio de Janeiro que sempre andam em duplas (também chamados Cosme e Damião)

 

 

patuá

 

forma giriática para substituir “o negócio”, “a questão”, “o problema”.

 

gêlo

 

desprezo

 

esquinar

 

ficar parado em esquinas, à espera de algo

 

cabrocha

 

mulher

 

que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho no sabão

 

que cozinhasse para mim e lavasse a minha roupa

 

bordejava pelas vias

 

perambulava pelas ruas

 

abasteci a caveira

 

tomei uma bebida - uma cachaça

 

troquei por centavos um embrulhador

 

comprei um jornal

 

na quebrada da rua

 

na esquina

 

veio uma pára-quedas se abrindo

 

veio uma mulher demonstrando interesse pelo malandro

 

eu dei a dica

 

o malandro dirigiu um gracejo mulher

 

ela bolou

 

a mulher foi receptiva à lisonja do malandro

 

eu fiz a pista

 

acompanhei-a

 

colei

 

aproximei-me, caminhando ao lado da mulher

 

solei

 

conversei com a mulher

 

bronquiou

 

demonstrou com palavras iradas, o seu desagrado

 

vivaldina

 

viva, esperta, inteligente

 

o cargueiro estava lhe comboiando

 

o namorado a estava acompanhando

 

morando na jogada

 

compreendendo a situaão

 

o Zezinho aqui

 

forma do malandro referir-se a si mesmo

 

o cargueiro jogou a amarraão

 

o namorado se aproximou dela

 

um cataplum no pé do ouvido

 

um soco ou bofetada na orelha

 

dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça

 

dei-lhe um pontapé no joelho

 

uma muqueada nos mordedores

 

forma de muque - um soco nos dentes

 

taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança

 

saltei-lhe com os dois pés sobre o peito

 

ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas

 

sacou o revólver e fez dois disparos

 

papai

 

(outra forma do malandro referir-se a si mesmo)

 

virou pulga

 

deu um salto

 

fêz a dunquerque

 

evadiu-se, fugiu (alusão à famosa retirada de dunquerque, na Segunda Guerra Mundial)

 

vermelho não combina com a cor do meu linho

 

referia-se ao vermelho do sangue

 

tira

 

policial, detetive, investigador.

 

fechar o paletó

 

matar

 

não tenho vocaão pr presunto

 

referia-se ao seu apego à vida

 

borracha grande

 

ônibus

 

no fim do carretel

 

no fim da linha, no ponto final

 

bem no vazio da lapa

 

no Largo da Lapa

 

às 15 para a côr de rosa

 

às 17 horas e 45 minutos

 

matina

 

manhã (observe-se a influência do elemento imigrante através desse vocábulo italiano)

 

o roque do meu pandeiro

 

o ruído do meu estômago

 

china-pau

 

“china” - (pequenos restaurantes chineses que serviam pratos a preços populares, na época, muito comuns no Rio de Janeiro)

 

boi a mossoró com confeti de casamento

 

bife a cavalo com arroz

 

e uma barriguda bem morta

 

cerveja bem gelada

 

como o meu era nenhum

 

como não tinha dinheiro…

 

pedi ao caixa prá botá na pindura que depois eu iria esquentar aquela fria

 

pedi ao caixa um crédito, dizendo-lhe que pagaria a despesa mais tarde.

 

dizendo que eu era produto do mangue

 

o Mangue é um dos prostíbulos do Rio de Janeiro - (curioso notar o eufemismo desta construão)

 

me queimei e puxei a solingea

 

irritei-me e saquei a navalha (a marca do instrumento Solingen, passou a sinônimo de navalha)

 

fiz uma avenida na epiderme do moço

 

fiz um talho na pele…

 

êle virou logo américa

 

ficou vermelho como sangue (América Futebol Clube, cujo uniforme se compõe de camisas vermelhas)

 

dedo-duro

 

delator

 

xifópagos

 

policiais do Rio de Janeiro que sempre andam em duplas (também chamados Cosme e Damião)

 



A magia da tradição oral

Despertar da identidade negra na educação infantil

http://www.esnips.com/doc/533cb36f-171a-48e9-b0c4-11828649d0b7/O-Despertar-da-Identidade-negra-na-Educação-Infantil

Interpretação de contos

http://www.esnips.com/doc/4294846b-c260-4af0-9ae8-f9f993008ee4/Interpretao-de-alguns-contos

A MAGIA DA TRADIÇÃO ORAL: O Contador de Histórias

Franz Kreüther Pereira, 1998.

Antigamente, o contador de histórias era um tipo necessário para a população que não contava com a televisão e seus recursos. Desempenhava ele um dos papéis mais importantes na educação das crianças: dava-lhes os elementos necessários para a compreensão da realidade, que muitas vezes parecia-lhes adversa, medonha, sombria. Através de suas histórias, seus “causos”, fábulas, lendas, etc. o contador apresentava uma visão de mundo, com seus conflitos humanos e sociais, com suas lições de vida, as quais o ouvinte iria recorrer em algum momento de sua vida.

Originalmente, os “contos” eram narrados na Idade Média, durante as noites invernosas nos castelos “mal-assombrados”, nas fazendas isoladas, nas aldeias espalhadas pelos campos, com a finalidade de trocar experiências e afastar os temores e Aflições pela corrente de força criada pelo grupo quando reunidos ao redor do “contador”. A luz bruxuleante das fogueiras ou das lareiras acesas, projetava sombras fantasmagóricas ao redor do grupo e atiçava-lhes a, já fértil, imaginação. O mundo de então era povoado de monstros, dragões, demônios, magos e feiticeiros, por seres encantados e encantadores. A magia pairava no ar, espalhava-se nas fumaças das fogueiras e chaminés, escondia-se nas sombras, despertava no crepitar do fogo. É nesse ambiente que surge a importante figura do Contador de Histórias.

Além de repetir estórias, o contador também as criava, à medida que observava as reações de seus ouvintes. A educadora Bárbara Freitag, num excelente artigo para o “Jornal da Alfabetizadora” intitulado “O Conto de fadas na sala de aula” (nº 13. 1991, 17-19) atesta que o narrador “era ao mesmo tempo inventor e repetidor de ‘estórias’ .E acrescenta: ” elas são verdadeiras formações arqueológicas, compostas de camadas e camadas de saber popular, em que dificilmente se distingue o que cada narrador posterior acrescentou, omitiu ou distorceu do conto ‘original’.” Trocando em miúdos, isso quer dizer que quem conta um conto aumenta um ponto.

A narração tem o poder da palavra, do som e suas inflexões, aliada ao gestual simbólico do narrador.

A narração não é uma declamação, é uma prosa, e sofre modificações conforme o ambiente, a ocasião, a platéia.

Um “contador” conhece e utiliza, mesmo que intuitivamente, quase todas as figuras de linguagem (como metáforas e catacreses), figuras de sintaxe (ênfase no pleonasmo) e figuras de pensamento (principalmente a hipérbole e a prosopopéia). Dessa forma, a narração de uma história, de um conto, lenda ou mito, ganha um enorme poder, podemos até mesmo dizer, hipnótico, capaz de transformar a fantasia em realidade, de evocar emoções, de fazer o ouvinte “viajar” nas asas da imaginação. E a criança acostumada a ouvir histórias desenvolve e estimula a imaginação, além de também desenvolver o gosto pela leitura e pelas pesquisas.

A leitura deve servir para que se possa ampliar os referenciais de mundo, e não para um acúmulo de informações. Para acumular informações existem os computadores. E para abrir caminho à leitura, nada é melhor.

do que ouvir histórias contadas pelos antigos, pelos avós; os ‘causos’ sucedidos com os mais velhos, as novelas míticas tão cheias de magia e encantamento. Contar histórias não é só uma arte que guarda as tradições culturais de um povo, é compartilhar informações de caráter social, lições de moral e costumes, além de fornecer subsídios para uma educação informal.

“Essas narrativas são formas muito especiais de interpretar, analisar e superar os dramas fundamentais da existência humana: a experiência do bem e do mal, da justiça e da injustiça, do amor e do ódio; a existência de normas e proibições; as questões em torno do enigma da vida, de nossa origem, de nossa morte” (Freitag, op cit)

Antes do advento da televisão era o rádio quem contava histórias, e reunia ao seu derredor corações e mentes mergulhadas na fantasia. Uma prova disso é a célebre novela radiofonizada por Orson Wells, em 1940.

Wells transmitiu a “invasão da Terra por marcianos” como se ele a estivesse assistindo e a transmissão fosse ao vivo. Usava pobres e improvisados recursos de sonoplastia, contudo criativos, e os efeitos sobre os ouvintes foram de um tal realismo que provocou pânico geral na população… e entrou para a história!

Pelo final da década de 50, início de 60 havia um programa numa emissora de rádio do Rio de Janeiro que, se não me falha a memória, chamava-se “Histórias de Trancoso”. Antigamente, muita gente se referia as “histórias de Trancoso”. Gonçalo Fernandes Trancoso1 foi o primeiro cronista português (pelos idos do séc. XVI). Naquela época também se falava das “histórias do Arco da Velha” ou “da Carochinha”. Havia ainda o hábito, gostoso, de ouvir histórias infantis “do tempo em que os bichos falavam”, como dizia a(o) narrador(a). A coqueluche, porém, eram as radionovelas, como a quilométrica “O Direito de Nascer”; e as minhas preferidas:

“Gerônimo, o Herói do Sertão”, novela de Moisés Weltman (1957-1965); ” O Anjo” (1959)”, personagem criado por Álvaro Aguiar (talvez inspirado no herói norte americano “O Santo”); “Radar, o Homem do Espaço”, no estilo Flash Gordon.

Com a chegada da televisão, o rádio perdeu muito de seu encanto, seu feitiço e magia, e ouvir histórias ao pé do rádio deixou de ser o programa da família. O Contador de Histórias, que vivia por detrás das válvulas e alto-falantes, abandonou a desconfortável moradia e mudou-se para a nova mídia: foi ser autor de novelas televisivas. E o brasileiro adquiriu o hábito de comentar as novelas exibidas na TV; contar para um (a) amigo (a) os capítulos perdidos e, principalmente, se deixar envolver pelos personagens e pela trama, ao ponto de confundir o ator ou atriz com a personagem. Isso revela como a fantasia exerce uma força muito grande sobre as pessoas, e que o homem contemporâneo, que convive com a avançada tecnologia, ainda guarda uma porção significativa do homem medieval: basta ver o aumento da crença em patuás, amuletos, videntes, etc.

Hoje as emissoras de rádio já não apresentam mais novelas radiofônicas, o que ao meu ver é uma bobeira de seus diretores, pois público com certeza existe. Outra coisa lamentável nas programações das rádios atuais é a ausência de um segmento dirigido especificamente para o público infantil. Até a poucos anos, aqui em Belém, a Rádio Cultura apresentava um excelente programa para as crianças, denominado “Abracadabra”*, que sumiu como num passe de mágica: Abracadabra!…

Toda criança gosta de ouvir histórias. A fantasia lhes é saudável e necessária como o ato de brincar.

Para elas brincar é exercitar a imaginação. Mesmo que a criança tenha acesso a discos e fitas, ou aos livros, a TV, ao vídeo, ao computador, não dispensa a participação de um adulto como narrador “a vivo”, aspergindo a magia da oralidade, na hora de dormir.

Como dizia minha avó:

Entrei pela perna do pato, saí pela perna do pinto, quem quiser que conte cinco…

Nota:* Neste ano (2000), a Rádio Cultura FM retornou com sua programação infantil, incluindo o excelente Abracadabra. 1 – Veja-se Histórias de Trancoso. Ed. Cátedra, 1983.

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