Entre os Muros da Escola

Entre os muros da outra escola
Está na hora de enfrentar a violência também no ensino privado
 
ELIANE BRUM
ebrum@edglobo.com.br
Repórter especial de ÉPOCA, integra a equipe da revista desde 2000. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de Jornalismo. É autora de A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua [...]



O Roubo da Consciência

Você certamente já leu ou ouviu, algum dia, a notícia de roubo, incêndio, naufrágio ou explosão de algum bem móvel ou imóvel que pertencia a alguém, não é mesmo?

No entanto, ninguém jamais ouviu ou leu uma manchete com os dizeres:

“Foi roubada a coragem desta ou daquela pessoa”, “Foi extraviada grande porção de otimismo.Quem a encontrar favor devolver no endereço citado”.

Ou então, “Incêndio consumiu toda a fidelidade de fulano” ou “Naufragou a honestidade de beltrano.”

Enfim, nunca se ouve falar que as virtudes de alguém tenham sofrido assaltos ou outro dano qualquer.

Todavia, isso acontece diariamente quando as negociatas indignas põem por terra a honestidade e a honradez deste ou daquele cidadão, que sucumbe ante grandes quantias em dinheiro ou favorecimentos de toda ordem.

No entanto, as virtudes que se deixam arrastar por interesses próprios, não são virtudes efetivas, são ensaios de virtudes.

Quem verdadeiramente conquista uma virtude, jamais a perde.

Contou-nos um amigo, jovem advogado que labora num órgão público que, em certa ocasião, estava com uma pilha de processos sobre a mesa, quando seu superior entrou na sala, tomou dois daqueles processos e pôs de lado, dizendo-lhe:

“Quero que você arquive estes processos.”

O advogado perguntou por que razão deveria arquivá-los, e o diretor respondeu simplesmente: “Porque os acusados são meus amigos e me pediram esse favor”.

O moço, que tinha compromisso sério com a própria consciência, fez com que os processos seguissem seu curso, sem interferir.

Tempos depois, os acusados tiveram que arcar com as custas do processo e indenizar vários cidadãos, aos quais haviam prejudicado de alguma forma.

Quando questionado por seu superior sobre o ocorrido, o advogado argumentou que o fato de os acusados serem seus amigos, não era suficiente para isentá-los da responsabilidade de seus atos.

Se o jovem advogado não tivesse firmeza de caráter, poderia ter dado ocasião a que fosse registrado em sua ficha espiritual a seguinte anotação:

“Este Espírito sofreu, em tal data, um assalto da corrupção e da prepotência e teve seus bens mais preciosos, que são a fidelidade e a honestidade, roubados.”

Felizmente isso não aconteceu.

……………

Toda vez que permitimos que nosso patrimônio ético-moral seja comprado ou roubado, ficamos mais pobres espiritualmente.

Quando aplaudimos a corrupção e a ganância dos outros, somos coniventes com essas misérias morais, e empobrecemos.

Pense nisso, e considere que vale a pena preservar esse bem tão valioso que é o seu patrimônio moral.

Texto da Equipe de Redação do site www.momento.com.br, com base em fato real



Dia das mães: A madrasta

Madrastas Como conviver com as “mães emprestadas” pela vida. Elas também
merecem um carinho especial no Dia das Mães?

Repórter: Renata Cristina
Designer: Laura Martins Ferreira
Edição: Ludmila Gusman
maio/2007

Nas histórias infantis, elas ganham o rótulo de vilãs. Sempre com o rosto fechado, aterrorizam a vida dos enteados e são taxadas de más. Cinderela e Branca de Neve são bons exemplos destes clássicos. As boazinhas dos contos de fadas tiveram que se desdobrar na convivência com a madrasta e, mesmo assim, não obtiveram sucesso.

Também na vida real, há muitas mulheres que sofrem com a marca e não sabem como conquistar os filhos do marido. Ciúmes, disputa de atenção e carinho são alguns dos sentimentos que dificultam estas relações. No entanto, o convívio pode, sim, ser amistoso, caso madrasta e enteados estejam de coração aberto.

É assim que a estudante de direito Amanda Calheiros (foto ao centro), de 19 anos, encara o relacionamento com a madrasta Aleandra. “Sou apaixonada por ela”, declara. Segundo Amanda, o contato com o pai seria prejudicado, se a amizade com Aleandra não fosse tão forte. “Estamos em família, não há motivos para dificultar as coisas, deixar o clima chato”, considera.

Embora Amanda não divida o mesmo teto com a madrasta, já que a jovem vive com a mãe, ela garante que não teria medo da proximidade. “Isso não me assusta, pois tenho também um padastro e vivo bem com ele e meus irmãos, do segundo casamento de ambos”.

O encantamento de Amanda com a madrasta é tão intenso, que a jovem diz que não teria receio em presenteá-la Dia das Mães. “Com certeza, ela merece, já que também é mãe de meus dois irmãos”. Para quem pensa que a mãe da garota poderia ficar enciumada com tanta dedicação, se engana. “Ela não tem problemas com isso. As duas convivem harmoniosamente”, diz.

Nem tudo são flores

Foto Ana Paula Batista Também adepta da convivência pacífica, a estudante Ana Paula Batista Ozório (foto), 17 anos, diz que nem tudo são flores. “Atualmente, tenho uma relação boa com ela, mas já passamos por muitas dificuldades”, relembra. Os problemas começaram a aparecer quando a Ana Paula chegou na adolescência. “Ela queria fazer o papel de mãe, me proibir de fazer certas coisas, o que me deixava muito triste”, diz.

A jovem se apoiou no pai para chegar a um consenso. O diálogo e a sinceridade foram os ingredientes usados pela estudante para resgatar a confiança da madrasta. “Prefiro deixar tudo bem claro e mostrar quais são as minhas razões”. Quanto ao presente de Dia das Mães, Ana Paula ainda não sente tanta firmeza no relacionamento com a madrasta a ponto de presenteá-la. “Para quem tem uma convivência boa, acho muito legal dar um presente”, afirma.

Manual da família feliz

Não meça o amor de pai

Os pais têm amor de sobra para os filhos. Não fique medindo a quantidade de tempo e carinho que ele dedica a você ou a madrasta. Aprenda que para cada tipo de relacionamento, há uma forma de expressar sentimentos. Madrastas e filhos devem ser compreensivos e deixar a vida fluir naturalmente. Quanto menos pressão as partes exercerem em direção ao pai, mais tranqüilo e saudável será o dia-a-dia.


Não faça da convivência uma disputa

Quando o clima esquentar dentro de casa, não coloque lenha na fogueira. A madrasta não deve interferir na briga de pai e filho, e as crianças vice-versa. Não tente disputar espaço, objetos ou datas especiais. Isso só irá desgastar o relacionamento. Aproveite o tempo em família para vivenciar os bons momentos e deixar para trás ressentimentos.


Comportamento em festas de família

Na hora das comemorações em família, pais, filhos e madrastas devem pesar na balança o quanto a presença dela ou das crianças se fará indispensável. Caso haja alguma situação desconfortante para as famílias, é melhor que alguém abra mão de ir à festa, sem criar desconforto. Os próprios filhos e até a madrasta podem conversar sobre o assunto, para que não causem um constrangimento pior depois.


Presentes para a madrasta

Se os filhos não se sentirem confortáveis em presentear a madrasta, não é necessário fazê-lo. No entanto, essa é uma forma de agradecimento, de mostrar o quanto ela é importante para o seu pai e sua família. Para o Dia das Mães, você pode pedir a ajuda do paizão para ver se ela gostaria ou não de ganhar um presente. Toda forma de carinho é válida!



O meu pai é um herói - Homenagem ao pai que é “mãe”

“O meu pai é um herói” Imprimir e-mail
Escrito por Cátia Figueiredo   
12-Mar-2008
Um homem que cria sozinho três crianças. É esta a história da família Ramalho. A doença levou a figura materna desta família. Foi então tempo do único homem da casa assumir as rédeas sozinho e educar as três filhas, hoje três mulheres. Em vésperas do Dia do Pai, o Independente de Cantanhede foi conhecer um super-pai, pelos olhos das filhas.

Ana Filipa (20 anos), Ana Rita (23 anos), Ana Margarida (24 anos) e José Ramalho (55 anos). Quem conhece este pai e as suas três filhas encontra uma família como tantas outras. O que distingue os Ramalho é a presença de um super-pai, como admitem a próprias filhas.

Foi há cerca de onze anos atrás que o pai José Ramalho assumiu a tarefa de educar sozinho três crianças, depois da morte da mãe Ramalho. “A princípio uma pessoa olha para esta história e pensa: “Uma tragédia!”, mas não”, garante a filha mais nova. “Primeiro porque não é nada de outro mundo, há gente bem pior, e depois porque o meu pai desempenhou perfeitamente o papel.”

A falta da mãe obrigou a alguns ajustamentos na família. Se a filha mais velha assumiu – e continua a assumir – o papel de “galinha”, já a do meio tornou-se na mais brincalhona e a mais nova é mesmo a mais reservada. Quanto ao pai, Ana Filipa garante ser unânime lá em casa que ele se tornou num super-pai.

“Há tempos uma senhora dizia: ‘É um grande homem!’ e o meu pai respondeu: ‘Não, eu só tenho 1 metro e 74!’ Além disso tudo, ele ainda consegue ser humilde.”

Altura de abandonar progenitor

Assumem-se hoje como meninas do papá. “E o papá também é das meninas”, garante a filha mais nova.

A infância, recorda a benjamim, foi um período feliz, onde não faltou carinho, cumplicidade e muita brincadeira. “Costumo dizer que a definição do meu pai é: o pai que se deita no chão para brincar com as filhas. Porque era, eu lembro-me de ele fazer isso comigo também.”

A falta da figura materna em casa acabou por não se revelar problemática. A situação acabou sim por estimular uma relação de grande confiança entre pai e filhas. “Houve uma vez que uma colega minha me perguntou: ‘Como é que tu consegues comprar soutiens com o teu pai?’ E eu pensei ‘como é que eu haveria de não conseguir?’ Para mim é super natural!, recorda Ana Rita rindo. “Como crescemos assim, nunca soubemos como era ser diferente.”

Hoje José Ramalho passa a semana sozinho na casa de Cantanhede, na companhia dos sete cães. A filha mais velha está a trabalhar em Inglaterra e as outras duas estudam em Coimbra.

A missão mais dolorosa coube à filha mais nova, a última a sair de casa. “Eu antes de entrar para a Faculdade lembro-me de chorar à noite no Verão a pensar no meu pai sozinho”, conta. “Eu costumava dizer que fui eu que fiquei com esse papel de abandonar o meu pai.” O problema acabou por não se revelar problemático e a jovem garante mesmo ter desenvolvido uma relação mais próxima com o pai.

O segredo da família para ultrapassar as dificuldades, revela a filha mais nova, é ir pensando nos obstáculos à medida que vão surgindo. “E depois logo se vê como se resolve.”

“Cenários de guerra”

Uma pessoa actual, aberta, pouco conservadora, pacífico e discreto. É assim que o pai José Ramalho é descrito pela cria. Falar de namorados é o assunto ainda hoje mais difícil para o progenitor. De resto, é conhecido pelas suas “saídas muito elegantes, sem falar dos assuntos, mas falando”

“É um herói”, acrescenta ainda. “E quando digo herói não é teoricamente, é mesmo na verdadeira acepção da palavra”, descreve Ana Filipa visivelmente orgulhosa. “O meu pai chegou a uma altura que fazia quatro coisas diferentes: dava aulas, colaborava com duas empresas e dava explicações.”

Porque até um super-pai também tem defeitos, José Ramalho é conhecido entre as filhas pelos seus “cenários de guerra”. É assim que as jovens classificam em tom de brincadeira os momentos em que o pai se enerva.

“O meu pai é um super pai, mas não é diferente. É igual aos outros. É é super.”

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Dia das Mães — e dos Pais…


Embora domingo que vem seja o Dia das Mães, é aos pais que desejo expressar minha mais sincera solidariedade. Dizem que ser mãe é padecer num para;iso. Pai sofre (e sofrer não é sequer tão nobre quanto padecer) — e não é em nenhum paraíso.

O pai está sempre correndo atrás do prejuízo. O homem se torna pai, mesmo, quando o filho nasce (e ele tem certeza de que é dele). A essas alturas, a mãe já é mãe há cerca de nove meses e, durante todo esse período, desenvolveu com o filho toda uma cumplicidade que o pai vai levar anos para conseguir (se é que consegue). A mãe alimenta o filho antes de ele nascer, sente-o crescer nas suas entranhas, recebe chutes e outras cutucadas dele, fica com o corpo meio deformado (se bem que ainda lindo) por causa dele, sofre mudanças no seu organismo relacionadas ao filho que carrega, tudo em preparação para colocá-lo no mundo e para alimentá-lo. Quando ele finalmente nasce, a mãe se sente, em relação a ele, como se estivesse lidando com um velho conhecido. Afinal, ele foi parte dela, em um sentido literal, durante nove meses. Em um sentido
figurado, nunca vai deixar de ser parte dela.

Durante todo esse período de gestação, o que faz o pai? Fica assim com uma cara meio abobalhada quando se lhe dão os parabéns, pois tem o sentimento de que está recebendo honras que não lhe são inteiramente devidas. Afinal de contas, sua participação no processo está sendo mínima (mesmo que inicialmente possa não ter sido desprezível).

Mas o pior vem depois de o nenê nascer. O pai olha para ele e pergunta: “Mas isso aí é o meu filho?” Falta-lhe aquele sentimento de intimidade com o recém-nascido que na mãe é tão natural. Afinal de contas, ela já o conhece bem.

Além disso, na maternidade, todo mundo quer ver, o nenê e a mãe — nesta ordem. O pai em regra nem é percebido, mesmo que esteja no quarto e por mais que se esforce para ser notado, distribuindo charutos, fazendo piadinhas, colocando o uniforme do time preferido na porta do quarto (se o nenê for menino), coisas assim. Se é o primeiro filho, então, ele em geral nem carregá-lo direito sabe: pega-o desajeitadamente, como quem está com medo de quebrar a criança. A mãe, por outro lado, parece que foi feita para aquilo: segura a criança com naturalidade, e esta se encaixa no vão entre sua barriga (que ainda não voltou ao normal) e os seus seios, prontos para alimentar o recém-nascido.

Convenhamos: a criança que acabou de nascer e que agora vai crescer é uma realização da mãe. O pai, na realidade, não passa de coadjuvante — mas a sensação dele é de que é apenas figurante. Nenhum homem vai jamais entender o mistério da maternidade.

Se o nenê for menina, o pai vai ter um pouco de chance de ganhar algum prestígio relativo mais adiante, por razões que Freud bem explica.

Mas se for menino, esqueça (pelas mesmas razões). O menino vai ser um eterno rival do pai, que vai se sentir cada vez mais preterido pelas atenções que a mãe vai devotar ao rebento - para o resto da vida!

Sei bem disso. Meu pai, com quase oitenta anos, ainda reclamava das atenções que minha mãe me dava quando eu ia visitá-los. Sempre reclamou. Houve um tempo, antes de eu ter meus próprios filhos, em que achei que meu pai tinha algum problema emocional mal resolvido para sentir ciúme do filho. Hoje, sei melhor, pois me sinto da mesma forma — e eu sei que… “eu sou normal”!!!.

Para vocês verem como o problema é sério, eu, como pai, já senti até uma certa inveja de uma raça de cavalos, mencionada num desses programas tipo “Mundo Animal”, na qual é costume que o pai expulse o cavalinho macho da “família” assim que ele começa a achar que é gente — para, sem a presença próxima do rival, tentar reganhar a mãe do cavalinho para si. Mas entre humanos isso não funciona.

E não adiante tentar desenvolver uma falsa cumplicidade com o menino, levá-lo ao campo de futebol, tentar inseri-lo no mundo dos machos da espécie… Quando ele tiver algum problema (exceto financeiro) é a mãe que ele vai procurar. E mesmo no caso de problemas financeiros, o menino muitas vezes pede à mae para abordar o pai — e a mãe as vezes resolve o problema do filho sem que o pai fique sequer sabendo…

Enfim, a gente vai ter de viver com esse problema para o resto da vida. A única coisa que realmente compensa é que a mulher se derrete toda quando você, o pai, trata bem o filho DELA. E pode até lhe dar uma colher de chá de vez em quando.

Feliz Dia das Mães, para as mães. E, para os pais, Feliz Dia dos Pais antecipado.



Uma sincera expressão do sentimento para com Deus

BRUXARIA:
UMA SINCERA EXPRESSÃO DO SENTIMENTO PARA COM DEUS

Maria Judith Machado de Carvalho (UNINCOR)

Geysa Silva (unincor)

 

“Por mais monológico que seja um enunciado, por mais que se concentre no seu objeto, ele não pode deixar de ser também, em certo grau, uma resposta ao que já foi dito sobre o mesmo objeto, sobre o mesmo problema, ainda que esse caráter de resposta não receba uma expressão externa bem perceptível”.(BAKHTIN, 1994: 317 )

 

Desde os primórdios da vida humana, mulheres e homens maravilhados pelos inúmeros mistérios da natureza renderam-lhes culto. Desta necessidade de cultuar originou o entendimento e do entendimento resultou o significado. Porém, estas três unidades de expressão não conseguiram substituir os mistérios da vida, pois estes nunca desaparecem. Assim, os antigos mistérios, ou seja, os mistérios de transformação - como as coisas se convertem em outras, como elas crescem, morrem e renascem - estão no cerne de muitos discursos religiosos, vulgarmente chamados de bruxaria.

Entendendo tais discursos como o lugar de encontro do lingüístico com o ideológico, pode-se afirmar que a bruxaria está presente no ocidente desde o período paleolítico, mantendo-se viva e atuante mesmo paralela ao paganismo greco - romano e ao cristianismo, até os dias atuais, já que, segundo Bakhtin (1994 : 343), não há nada morto de maneira absoluta e todo sentido sempre festeja algum dia o seu renascimento.

Logo, a bruxaria é primeiro e antes de tudo uma aceitação da divindade personificada no que chamamos de natureza, com discursos específicos de acordo com as circunstâncias e as vivências das pessoas envolvidas. Também é sabido que uma espécie de poder capaz de transformar a vida das pessoas através da cura, da leitura de astros, do fornecimento de alimentos e outros sempre foi acessível a algumas mulheres e homens de toda cultura. E este saber próprio transmitido oralmente de geração em geração ultrapassou fronteiras, através das pessoas que viam e iam, ajudando na formação de vastas confrarias as quais intercambiavam discursos sobre os segredos da cura do corpo e muitas vezes da alma. Tal fato reflete o princípio dialógico decorrente da exotopia de Bakhtin ( 1994:343 ): “não há uma palavra que seja a primeira ou a última, e não há limites para o contexto dialógico, este se perde num passado ilimitado e num futuro ilimitado…”

Desta maneira , estando a palavra inexoravelmente contaminada do olhar de fora , conclui-se que os discursos da bruxaria são narrativas tecidas através das experiências alheias, aquelas ditas como exemplares, nas quais, de acordo com Walter Benjamim(1994 :.200 ) , o caráter utilitário, ou melhor, o aconselhamento, como também a idéia de harmonia com a natureza podem ser encontrados:

“Não chore por mim quando eu morrer, pois ainda estou aqui.

Estarei no verde das árvores da floresta,

Estarei nas flores dos campos,

Estarei no borrifar das águas da praia,

Estarei no suspiro do vento de um dia quente de verão,

Estarei nas águas encapeladas dos riachos,

Estarei na luz do Sol e da Lua Cheia.

Estarei com o Deus e a Deusa para sempre.

E renascerei.” ( CANTRELL, 2002: 35 )

Com este olhar , é merecido afirmar que os discursos da bruxaria,embora ridicularizados e deliberadamente associados ao mal pelas religiões institucionalizadas e pelas comunidades científicas ao longo da história de suas enunciações, nada têm de parecido com lançar feitiços ou práticas maldosas, são puras manifestações de amor ao Criador e de esperança na continuação de Sua bondade. A forma nada ortodoxa que buscam sua verdade é que diferem dos demais discursos , pois envolve elementos como a magia, que é parte da sabedoria universal, embora a maioria das pessoas sejam resistentes em aceitá-la, já que foram condicionadas desde a infância a ter uma visão de mundo racional, onde os simbolismos da magia não fazem o menor sentido, porque não dizem diretamente aquilo que querem dizer, fazendo necessárias a leitura e interpretação desses simbolismos para o seu entendimento. E segundo Debray ( 1993:58 ), comunicar através de signos é excluir tacitamente da comunicação viva o grupo vizinho , para quem esses signos são letras mortas ou jogo gratuito de imagens.

Assim, quando houve uma maior profundidade da cristandade, as leis eclesiásticas contra a prática de determinados cultos e, conseqüentemente ,de seus discursos tornaram-se mais rígidas, reprimindo duramente todo um saber que caiu na clandestinidade. Porém estas vozes silenciadas se opuseram àquelas opressoras, acentuando o seu caráter destruidor e uniformizador. E foi em silêncio que estas vozes sufocadas prosseguiram com o seu trabalho de subversão, conseguindo chegar ainda hoje aos nossos ouvidos através de redes de sociabilidade afetiva. São os legítimos discursos performativos alterando o pedagógico:

Mantenha um livro em suas própria mão de escrever. Deixe que irmãos e irmãs copiem o que quiserem, mas nunca deixe esse livro fora de suas mãos e nunca guarde os escritos de outro, pois se for encontrado com sua letra você será apanhada e torturada. Cada um deve zelar por seus próprios escritos e destruí-los quando o perigo ameaçar. Aprenda tanto quanto puder de cor e quando o perigo passar reescreva seu livro.O mesmo faça com as ferramentas. Que elas sejam como coisas comuns que qualquer um tenha em casa. Que os pentáculos sejam de cera para que possam ser derretidos ou quebrados rapidamente. Não possua nomes ou signos sobre nada, escreva os nomes e signos com tinta antes de consagrá-los e lave-os imediatamente depois. (GARDNER, 2003:52)

Também uma memória hábito aqui é constatada -“um exercício que, retomado até a fixação, transforma-se em um hábito, em serviço para a vida cotidiana” (BOSI,1979:.11 ) - já que as chamadas bruxas ainda hoje , apesar da perseguição ter esmorecido, continuam repetindo os mesmos discursos de proibições e se mantendo escondidas como nos anos de martírio. Isto parece revelar que as lembranças da tortura de tão compartilhadas passaram, de certo modo, a ter um respaldo maior de credibilidade como se o fato de ter havido mais testemunhas as tornassem mais concretas e reais.

Os discursos da bruxaria sempre partiram do princípio que todas as coisas são partes da Grande Mãe, incluindo o poder de destruir, o mistério da morte e a escuridão da noite, que são ingredientes necessários na Grande Roda da Vida Criada. Mas, entre 2500 e 1500 antes da era cristã, já se percebe uma mudança nos discursos das mitologias e literatura sacra: a vida passou a ser vista principalmente como uma luta entre as forças do bem e do mal e a vida na terra tornou-se menos importante do que a vida por vir. O mundanismo foi rejeitado como conceito religioso, levando muitos dos velhos discursos a serem refeitos para refletir essa transformação de consciência. Por sua vez, com o advento do cristianismo, as “boas novas” que ele pregava e os discursos da bruxaria coexistiram, pois o cristianismo não se tornou a fé dominante de um dia para outro. Porém, à medida que a Igreja cresceu em estridência na sua doutrinação, aqueles discursos que diferiam dos seus foram distorcidos e as imagens arquétipicas de suas divindades desfiguradas, sobretudo o Deus Cornífero, que por ter chifres foi chamado de Satã, Lúcifer, Belzebu, representando o legítimo demônio das Sagradas Escrituras. Foram discursos feitos como forma de propaganda para desencorajar e assustar as pessoas que tivessem relação com aquela que a igreja considerava rival. Desta maneira, a prática da bruxaria foi associada ao mal para justificar o sistemático extermínio de seus praticantes, nas chamejantes fogueiras da Inquisição, como também a destruição de seus lugares e santuários sagrados, pois a Igreja tinha como meta resguardar o seu domínio.

Conclui-se, então, que a partir da caça às bruxas, seus discursos passaram a ser proferidos numa dimensão oculta da sociedade, verificando uma construção social da memória feita por aquelas agora tidas como bruxas, como também pelo Estado em relação a elas , uma vez que a partir do momento que as bruxas passaram a trabalhar às escondidas e o Estado a persegui-las, houve uma tendência de ambas as partes de criar esquemas coerentes de narração e de interpretação dos fatos, que são verdadeiros “universos de significado” e dão uma versão própria dos acontecimentos. Como Bosi afirma (1979:.27 ), “este é o momento áureo da ideologia com todos seus estereótipos.” Vários discursos de adoração , segredos do conhecimento das ervas e o grande segredo da magia foram tratados de forma que se tornaram quase uma sociedade familiar secreta. Enquanto que,por outro lado, a imagem de hereges e adoradoras do demônio era tecida. Obviamente que venceram os discursos pronunciados pelos opressores; foi uma luta do coletivo contra uma minoria, cuja fraqueza e falta de possibilidade de se defender fortaleceu o ponto de vista opressor, melhor dizendo, foi uma compreensão passiva que excluiu totalmente a possibilidade de alguma resposta:

As bruxas desencadeiam tempestades danosas com raios e trovões; causam a esterilidade de homens e de animais; fazem oferenda de crianças aos demônios, as quais acabam matando e devorando. (FRAMER & SPRENGER, 2002: 214 )

Embora proferidos às margens, os discursos da bruxaria continuaram a relatar fatos e em alguns deles é possível observar aquilo já mencionado por Barthes(1988:.146 ): há diferença entre o fato ocorrido e o seu relato, assim como existe um descompasso entre o tempo do fato e seu enunciado:

Eu me lembro, ó fogo,

Como tuas chamas uma vez inflamaram minha carne,

entre bruxas retorcidas por tuas chamas,

agora torturadas por ter contemplado o que é secreto.

Mas para aqueles que viram o que vimos

sim, o fogo nada era.

Ah, bem me lembro dos edifícios iluminados

com a luz que nossos corpos emitiram.

E sorrimos ao contemplar o vento das chamas por trás de nós,

O fiel entre os infiéis e cegos .

Ao salmodiar das orações

No frenesi das chamas

Cantamos hosanas a vós, nossos Deuses,

Em meio ao fogo doador de força,

Dedicamos nosso amor a Vós da Pira. ( GARDNER,2003:119 )

Nota-se que a experiência vivida acima é refeita de modo que a cena tão comovente perdeu muito de seu poder sugestivo, despojando-se, portanto, do prestígio que a circundava: a morte nas fogueiras passou a ser coadjuvante, enquanto que a fé das bruxas passou a protagonista. É como se a cena fosse iluminada de outra forma, sendo reconhecida, embora não podendo dizer que ela tenha permanecido o que era antes. Seria dizer que ao relatar um fato, uma nova leitura é feita, pois segundo Bosi (1979:.21), a experiência da releitura é apenas um exemplo, entre muitos, da dificuldade, senão da impossibilidade , de reviver o passado tal e qual.” Aqui o passado foi trabalhado qualitativamente, ou seja, as lembranças emitidas pelo discurso conservaram o passado do indivíduo na forma que lhe foi mais apropriada, ou seja,aquilo que foi desagradável foi alterado, assim como aquilo que era trivial foi elevado à hierarquia do insólito e no fim formou-se um quadro total, novo, sem desejo consciente de falsificá-lo.

É digno também de menção os muitos discursos bem elaborados das bruxas nos quais as crendices populares sobre o demônio eram exploradas, conseguindo, assim, salvar muitas vezes suas vidas:

…ela relatou que o demônio havia aparecido para ela na noite anterior , vestindo roupas pretas e segurando uma varinha em sua mão; acrescentou que o demônio exigiu que ela continuasse seu trabalho de fé, de acordo com seu primeiro juramento e promessas realizados.Ela renunciou completamente a aparição e lhe disse: “Vá embora Satã. Eu ouvi muito o que você disse, mas agora quero que você desapareça.” O demônio respondeu que uma vez feito o juramento, ou ela morria ou se entregava. Após dizer isto, o demônio quebrou sua varinha branca e desapareceu. (MURRAY, 2003:57 )

Chegando ao século XVI, verifica-se que os assuntos relacionados com a bruxaria é ainda de interesse das pessoas, visto que elas, embora rejeitassem o questionamento de caráter religioso, eram tão devotamente religiosas quanto os seus antepassados medievais e ainda supersticiosas o bastante para acreditar em bruxas. E Shakespeare,com sua genial perspicácia, soube como ninguém explorar tal imaginário de temor e perseguição com seu discurso teatral em “Macbeth”. Tal discurso intensificou toda uma imagem negativa em relação às bruxas., pois os discursos que Shakespeare colocou na boca das bruxas foram enigmáticos, dificultando a decodificação de suas mensagens e forjando a ambigüidade das palavras, como também das interpretações ,enchendo, assim, a atmosfera de uma influência maligna, o que leva a crer que as bruxas são mais poderosas e macabras do que se possa supor e que sempre prejudicam as pessoas através do uso de forças mágicas: “Fair is foul, and foul is fair… ” (SHAKESPEARE,1983:1)

Atualmente com a eclosão das ciências femininas, como a ecologia, surge em todo mundo um interesse pelo culto da natureza e, conseqüentemente, pelos discursos pagãos,ou seja, aqueles usados hoje em dia para descrever qualquer prática espiritual anterior ao período em que a cultura e as religiões dos povos invasores foram impostas às comunidades tribais, vulgarmente chamados de bruxaria. Estes diversos discursos (Celta, Druidismo, Xamanismo, Wicca…) são centrados na terra, seguindo um calendário baseado nas quatro estações , além do uso de antigas práticas espirituais do mundo todo, assim como eram antes de ser subjugadas - reverência da vida através de festivais, cerimônias e atividades que refletem às necessidades do momento . Eles também se apóiam em informações mais recentes, relativas a tradições centradas na natureza e que resultaram de várias vozes ecológicas e ambientais cada vez mais amplas nos últimos cinqüenta anos. Pode-se dizer, então, que são variantes do paganismo, isto é, idioletos que, segundo Jakobson(BARTHES,1993:24), são linguagens de certas comunidade lingüísticas , ou de um grupo de pessoas que interpretam da mesma maneira todos os enunciados lingüísticos:

Viver a Rede Wicca você precisa,

Em perfeito amor e perfeita confiança.

Viva e deixe viver,

Tome com justiça e dê com justiça.

Olhe com suavidade e toque com suavidade,

Fale pouco e ouça muito.

Dê ouvidos às flores, arbustos e árvores,

E pela Senhora será abençoado.

Quando tiver uma necessidade,

Não dê ouvidos à ganância dos outros.

Não passe tempo com um tolo

Nem se considere amigo dele.

Felizes encontros e felizes partidas,

Ilumine o rosto e aqueça o coração

E seja para sempre fiel no amor ,

A menos que seu amado lhe seja infiel.

Lance o círculo três vezes

Para manter todos os espíritos fora.

Para que o encantamento seja sempre válido,

Diga-o em versos.

Sentido horário na lua crescente,

Entoando a runa Wicca.

Sentido anti-horário na lua minguante,

Entoando a runa maléfica.

Quando a lua da Senhora for nova,

Beije a mão para Ela três vezes.

Quando a lua estiver no seu pico,

Busque o desejo de seu coração.

Nas direções das águas ondulantes,

Jogue uma pedra para saber a verdade.

Quando estiver muito infeliz,

Use a estrela azul na testa.

Oito palavras cumprem a Rede Wicca:

Se não prejudicar ninguém, faça o que desejar! (CANTRELL, 2001: 191)

Se de fato a bruxaria é uma religião paleolítica ou uma releitura dos cultos arcaicos, a verdade é que ela vem desempenhando um importante papel no resgate de valores em desusos , tais como: o prazer, a solidariedade, a não-competição e a união com a natureza. E os sentimentos que unem seus praticantes são os mesmos de querer estar mais próximo Daquele que nos criou e de mostrar a profunda gratidão que eles,adoradores, não conseguem expressar com palavras. E através dos símbolos e das metáforas - tambores, pedras, penas, conchas, varas de condão, taças, caldeirões e vestimentas feitas de plantas e animais -, seus discursos revelam os padrões de conhecimento que estão subentendidos no universo físico, assim como nossos ancestrais entendiam a natureza , buscando orientação ou cura em suas criaturas, ervas, flores e árvores e compreendendo a vida por meio de visões, viagens astrais e sonhos:

Que agora os poderes da vida e da luz

abençoem-me e protejam-me nesta noite.

Forças do bem, da vida e da luz,

Desçam à minha varinha esta noite,

Pois esta é uma ferramenta de minha arte sagrada.

Por isso, seus poderes eu peço agora.

Com os elementos terra ,ar,fogo e mar,

Eu agora te batizo, abençôo e consagro!

Que a minha vontade seja feita, assim seja! ( SABRINA,2002: 174 )

Vê-se que os seres humanos reverenciavam a vida de formas muito mais simples, não precisando nada além da natureza para preservar a saúde espiritual, de suas tribos. Porém, com o surgimento da religião organizada, mecanismos de controle que baniam as práticas pagãs foram postas em ação Igrejas e outras construções de cunho religioso foram erigidas em locais sagrados pagãos, muitas datas pagãs foram incluídas em seu calendário, e as práticas xamânicas foram consideradas obra do demônio, relacionando o conceito de medo ao de espiritualidade. Deste então, começamos a aprender a nos relacionar com o Divino por intermédio da Igreja.

Muitas guerras foram travadas em nome da religião. Inúmeras pessoas sofreram ao longo de eras em resultado disso. Forças poderosas ainda lutam pela supremacia sobre terras , povos e mercadorias, exercendo o mesmo controle posto em vigor há tanto tempo atrás. A total desinformação com respeito ao verdadeiro significado das práticas pagãs gerou a grande confusão e ignorância que existe hoje com relação à bruxaria. Esta foi um dia uma parte essencial da vida em comunidade, cuja própria vitalidade levou-a a sofrer a exploração e repressão de que foi vítima.

Hoje, falando a uma só voz no mundo todo, devido ao aumento de publicações, revistas e de grupos praticantes, a verdade da bruxaria, como um discurso poderoso, mas pacífico e amoroso, está aos poucos desfazendo muitos equívocos cristãos. No momento, a bruxaria é vista como uma religião em rápida expansão e mais do que nunca, temos de ficar cientes de que é preciso sempre respeitar a decisão de outra pessoa de se dedicar a práticas que estejam de acordo com suas crenças e ideais , desde que não prejudiquem ninguém.

Que este seja um tempo em que os discursos das religiões do mundo todo tolerem e respeitem as crenças alheias, construindo assim uma ponte para uma paz duradoura.

Assim seja!

Nós Te contemplamos, Mãe, nossa Mãe-Terra, que nos

ensinas que sem primavera não pode existir verão, sem verão não pode

existir inverno, e sem inverno não pode existir primavera.

Todos nós viemos de Ti, e a Ti voltaremos como a água fluindo para

o oceano . Retornaremos como chamas subindo aos céus.

Une-te a nós, Senhora. Bênçãos.” (CANTRELL,2002:83 )

 

BIBLIOGRAFIA

BAKTHIN, Mikhail. O problema do texto. In:_____ Estética da Criação verbal . São Paulo: Martins Fontes, 1994. p. 275-326.

BARTHES, Roland. Elementos da semiologia. São Paulo:cultrix,1993.

BARTHES, Roland. O discurso da História. In: _____ O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 145-157.

BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In:______ Magia e técnica, arte e política. 7ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 197-221.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz, 1979.

BHABHA, Homi K. O local da cultura: Humanitas-Editora UFMG, Belo Horizonte,1998.

CABOT, Laurie. O Poder da bruxa. 17ed .São Paulo: Madras, 2002.

CANTRELL, Gary. Wicca: crenças e práticas. São Paulo: Madras, 2002.

DEBRAY, Vida e morte da imagem. Tradução Guilherme Teixeira. Petrópolis: Vozes, 1993.

FRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras. 16ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos,2002.

GARDNER, Gerald. A bruxaria hoje. São Paulo: Madras,2002.

MURRAY, Margareth. O culto das bruxas na Europa Ocidental. São Paulo Madras, 2003.

SABRINA, Lady. O grande livro da magia da bruxa. São Paulo: Madras, 2002.

SHAKESPEARE,, William. Macbeth.. Singapore: longman,1983.

POLLAK, Michael . Memória, esquecimento, silêncio . Estudos Históricos. Rio de Janeiro. V.2,n 3 1989, p.3-15.



Se eu fosse criar meu filho de novo

SE EU FOSSE CRIAR MEU FILHO DE NOVO

Se eu fosse criar meu filho de novo,cuidaria da auto-estima primeiro,e da casa depois.

 Faria mais pinturas com dedo,e apontaria menos o dedo.

Disciplinaria menos,e acalentaria mais.

Olharia menos para o relógio,e mais para ele.

Daria mais passeios e empinaria mais pipas.

Pararia de ser séria ,e brincaria seriamente.

Correria através de campos,e olharia para mais estrelas.

Daria menos safanões e mais abraços.

Veria mais frequentemente o carvalho em seu fruto.

Falaria menos,e diria mais.

Tomaria para modelo menos o amor ao poder e mais o poder de amar.

Diane Loomans



Olha o olho da menina

Olha O Olho da Menina
Marisa Prado

Menina crescia escutando
que não adiantava mentir
porque mãe sempre sabia
Mãe dizia
que lia na testa da Menina,
e que só Mãe sabia ler testa.
Menina tentava tapar a testa com a mão
na hora de mentir.
Mãe achava graça. Muita graça.
E continuava lendo assim mesmo 
Menina precisava entender
como essa coisa misteriosa acontecia.
No espelho do banheiro,mentia muito em silêncio.
E na testa, nada escrito! 
Aí, Menina descobriu que Mãe também mentia.
E que então não era testa
- era o olho, com um brilho diferente -
que entregava a mentira. 
Menina então tentava fechar o olho com força,
para esconder a Mentira.
Mas nem isso resolvia, pois Mãe sempre adivinhava. 
Menina tinha era que aprender
a fingir de olho aberto que mentira era verdade.

Menina tentou, tentou… e aprendeu.
Era essa a solução. 

Mas de noite Menina ficava apertada por dentro. Assim meio sufocada, não podia nem piscar.
Com o olho muito aberto, não conseguia dormir. 
Faltava ar pra Menina.
Igual quando a gente fica quase sem respirar
rindo de uma cosquinha. Só que não tinha graça.
Menina - sem querer - tinha descoberto a Consciência, uma coisa que toma conta da gente
mesmo quando Mãe não está lendo testa,
nem adivinhando olho. 
Menina tinha aprendido que ter que fingir doía.
E que desse jeito ia ficar muito sem graça
ser gente grande.
Menina desistiu de crescer. 
Mas não adiantava.
Menina via que agora já estava quase da altura
do móvel da sala da vovó.
E ficava muito triste, o aperto apertando mais
E de tanto que o aperto apertava,
Menina achou que fingir só podia doer tanto
porque era dor sozinha. 
Menina teve uma idéia, e ainda não sabia
se era idéia brilhante.
Mas sabia - isso sim - que precisava testar,
pra conseguir descobrir. 
A idéia da Menina foi dizer para Mãe
que era difícil fingir.
Menina achava ruim aprender montes de coisas
sem dividir com ninguém. 
Menina falou pra Mãe que era muito complicado
e que não era nada bom ter que crescer sozinha
Mãe abraçou muito apertado a Menina.
E no colo tão esperado Menina estava sendo mãe da Mãe. 
Menina sentiu que Mãe estava chorando.
E que Mãe ainda não tinha aprendido tudo.
Mãe não falava nada
Mas uma e outra sabiam naquele abraço apertado
que em Mãe também doía ser gente grande sozinha. 
Nessa hora Menina entendeu tudinho.
Descobriu que só carinho é que espanta a solidão.
E que dor, se dividida, fica dor menos doída.

E que aí, dá até vontade de continuar a crescer
pra descobrir o resto das coisas.

 

 

 

 

 






Apaixonar-se por si mesmo

Apaixonar-se por si mesmo!

 por Marta Medeiros

 

 

E então, viver e não ter a vergonha de ser feliz ….

“Hoje é o momento ideal pra falar de sacanagem. Mas nada de ménage à trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludi-lo. Pretendo, sim, é falar das sacanagens que fizeram com a gente.

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto.

Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade.

Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.

Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo prá gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.”

 

 



Espelho e desejo

Espelho e desejo
Martha Medeiros

Uma amiga me diz que não suporta mais se olhar no espelho. Ela está se achando gorda, feia, desprezível. Antigamente, eu talvez dissesse a ela que está na hora de fazer uma dieta e dar uma ajeitada no visual, mas hoje em dia aconselho outra coisa: está na hora, isso sim, de trocar de espelho.
Ela está apenas um pouco acima do peso ideal, e feia não é de jeito nenhum. É uma mulher inteligente, divertida, bacana. O problema é que está totalmente focada no trabalho, não tem se relacionado com ninguém. Não namora. Não quer nem pensar em seduzir ou ser seduzida, fechou pra balanço. É é justamente este o espelho que está lhe faltando pra ver-se com olhos mais generosos.
A gente se apaixona por si próprio à medida que nos enxergamos através dos olhos dos outros. Isolados numa ilha - ou trancados num apartamento - a tendência é não enxergarmos grandes atrativos em nós. Mesmo sabendo que somos pessoas legais, quem confirma isso? Ok, com a auto-estima em dia, não dependemos tanto assim da apreciação alheia. Mas ninguém consegue manter-se em alta por muito tempo sem comprovar que é amado, gostado. Em suma, desejado.
Todo ser humano necessita despertar desejo. Quando as pessoas nos olham e não nos diferenciam de uma cadeira, a coisa vai mal. Isso acontece muito naquela instituição, como é mesmo o nome…? Casamento. Os dois seguem se amando, mas já estão há tanto tempo juntos que não faz mais diferença se a mulher embarangou ou se o marido perdeu os dois dentes da frente: “amo você de qualquer jeito, bem” . Ama, sem dúvida. Mas não nos enxerga mais. É aí que mora o perigo. Homens e mulheres precisam de um espelho que lhes diga constantemente o quanto são interessantes e atraentes. Se o espelho rachou em casa e não reflete mais nada, das duas uma: ou a gente se entrega ao desleixo, ou vai buscar reflexos de si mesmo em outro alguém.
Conheço garotas muito mais gordas que minha amiga, e menos bonitas e inteligentes do que ela, mas que não sentem vergonha do próprio corpo, seguem no jogo da vida, ganhando mais do que perdendo. São bem amadas por amigos e namorados, portanto a imagem que têm delas mesmas é menos rigorosa. E acabam se tornando belas de verdade
.



Lispector

“Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”

Clarice Lispector